Sobre tubarões e poetas mortos (ou saudosismo e desafios vencidos)

Não há nada como uma primeira vez. O nervosismo, a ansiedade e o tesão fazem da experiência de tentar algo novo um evento marcante e inesquecível. Seja a primeira vez no cinema, a primeira experiência sexual ou a escrita do seu primeiro artigo para um site, não há como escapar, esses são momentos que moldam seu destino, formam seu caráter e proporcionam mudanças na sua vida que, mesmo que pareçam insignificantes em um primeiro momento, resultam na formação do seu ser cidadão, profissional e espiritual. Para meu texto de estreia no FalaVisual, decidi trazer um breve relato sobre minha relação com a sétima arte e a crítica cinematográfica, e sobre as primeiras experiências que me formaram um amante de cinema e me guiaram até aqui. Desde já, adianto: é um prazer escrever para vocês leitores.

Primeira vez no cinema

Acredito que todos se lembram de sua primeira ida ao cinema. É claro que o fato de assistir a um filme em uma tela enorme é um evento marcante por si só, mas acredito que a nossa relação com essa arte vai muito além disso. Cresci ouvindo da minha mãe diversas histórias sobre seus filmes favoritos da adolescência e suas incríveis experiências no cinema. Ela falava sobre Grease,  por exemplo, com tanta paixão e saudosismo, que inevitavelmente criei uma expectativa quase mística em relação ao silencioso e hipnotizante feixe de luz que rasga a escuridão e nos presenteia com imagens em movimento.

No verão de 2005, passávamos nossas férias na casa de praia do meu avô, quando minha mãe decidiu apresentar a mim, meus irmãos e alguns primos a magia do cinema. O pré sessão, com os fliperamas e pistas de boliche da ala de espera do estabelecimento, a enorme expectativa pelo filme que escolhemos: O Espanta Tubarões (Shark Tale), somados ao pós sessão, o compartilhamento das impressões da obra e o êxtase de compartilharmos de um primeiro contato com a penumbra envolvente de uma sala de cinema, fizeram daquele dia único.

Isso tudo me fez perceber que, sim, um dos meus locais favoritos para se estar é no espaço entre um projetor e uma enorme tela, mas foi preciso tempo para que eu entendesse o que está por trás de toda a mística do cinema, fisicamente falando. A experiência cinematográfica vai muito além do filme em si. Estou falando aqui da escolha do filme, da expectativa, do ambiente que nos provoca – evitamos instintivamente o escuro, mas o cinema, como que se nos desafiasse a encarar nossos medos, nos atrai para a incerteza e o desconhecido do breu como uma lâmpada atrai insetos para a morte -, do cheiro da pipoca, das reações da audiência (que, infelizmente, nem sempre se porta adequadamente) e, o que ao meu ver é o fator mais importante, o compartilhamento de impressões pós sessão. Compartilhar experiências é muito importante para nós, humanos, mas, para o cinema, a troca de opiniões e a discussão em torno das obras é fundamental. E é a partir dessa última afirmação que faço link com o próximo tópico deste artigo.

Mas, antes de dar seguimento ao texto, me sinto na obrigação de fazer um apelo. Nos é costumeiro frequentar salas de cinema localizadas em shoppings e outros centros comerciais, o que é ótimo. Um passeio, compras e fast food são um excelente programa. O que me comove é saber que o grande apelo comercial e a demanda de consumo da nossa sociedade, acaba por influenciar no ofuscamento dos cinemas tradicionais. Visitar diferentes salas e espaços reservados para o meio audiovisual não só nos enriquece artisticamente, como ajuda a manter vivo esse tipo de estabelecimento. Me entristece saber que o primeiro cinema que visitei já não existe há muito tempo, me impossibilitando de revisitar minha infância e reviver parte da minha história. Aproveitem, visitem os cinemas tradicionais a sua volta, antes que eles se tornem campus de alguma faculdade ou sede de uma igreja.

Primeira crítica cinematográfica

Na faculdade, fui provocado a escrever uma crítica cinematográfica. Sempre admirei os profissionais dessa área, e sempre gostei de escrever, mas nunca me passou pela cabeça que fosse capaz de desenvolver um senso crítico para expressar, ou até mesmo perceber em um filme fatores que justificassem minha impressão sobre a obra. Algo que me acompanha desde a infância é minha baixa autoestima. Desafios me assustam mais do que me motivam e sempre tenho a impressão de que não estou apto para experimentar coisas novas. Temia não conseguir passar dos famosos “não gostei/gostei” ao dissertar sobre cinema, e isso me apavorava. Mas, quando se tem deveres em jogo, não há como escapar.

O filme escolhido para a resenha foi o ótimo Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society). Essa obra conversou comigo de uma forma que poucas fizeram antes, enchendo meu peito de calor e meus olhos de lágrimas. Ao fim das 2h8min do longa, eu transbordava inspiração e foi inevitável que transcrevesse tamanho amor que sentia para meu texto.

https://www.youtube.com/watch?v=j64SctPKmqk

Não sei se fui inspirado pelo desafio ou se fiz a melhor escolha possível para a crítica, mas perceber que podia discorrer uma análise sensível e que o exercício de mergulhar nas entranhas da obra e ponderar sobre suas intenções, formais e sensoriais,  só fazia enriquecer e engordar o consumir/discutir/produzir cinema. Descobri ali uma nova paixão.

A crítica de cinema vai muito além de avaliar um filme. Um filme é muito maior que uma nota. O crítico não tem como seu dever vender ingressos ou levantar uma verdade universal sobre uma obra. Não somos computadores; não há como separar opinião de valores técnicos, e essa é a beleza do meio crítico. A função dos críticos de cinema é, única e exclusivamente, fomentar a discussão da arte cinematográfica e manter vivo esse meio que nos invade com inspiração, entretenimento e conhecimento.

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1 Comment

  1. Incrivel texto.
    A prenuncia de “estreia” e algo incrivel. Me fez lembrar o filme O POÇO e o quanto esse filme me lembra o espanta tubaroes. Assim como o tubarão nao queria comer peixes. O Gurang nao queria comer a comida do poço

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