Revisualizando: A complexidade do amor e desamor no brilhante 2046

Ser apelidado de “sequela de In the Mood for Love” pode ser um peso difícil de carregar às costas. Ainda para mais quando tudo o que o filme procura fazer é tão único e tão diferente daquilo que fez desse anterior grande sucesso de Wong Kar-Wai um dos filmes mais venerados da história do cinema. Irei sempre bater o meu pé: 2046 não é uma sequela! Para que um filme seja uma sequela não basta que apresente personagens – ou apenas vislumbres delas – que já vimos antes. Kar-Wai nunca quis aqui continuar nada, nunca quis dar mais do mesmo, nunca quis sequer aprofundar a bela história de amor que os fãs pediam. 2046 é do mais disruptivo que possa existir, quer para a continuidadade da obra atrás referida, quer para o próprio género de romance. 

A melancolia sobe para patamares insuportáveis para o nosso coração, para a nossa mente, para a nossa alma. Transmite-nos boas sensações, mas nunca é desonesto ao ponto de dizer que estas são para continuar e que nos acompanharão até ao final. O desapego que a personagem principal demonstra pelas belas e interessantes mulheres que o rodeiam é o desapego que nas mãos de outro cineasta nos deixaria entedidados. Mas, tal como neste filme acontece com várias personagens do filme, os sentimentos acabam mesmo por nos vencer. A eles não podemos fugir. Podemos não ter o que queremos, mas não podemos sentir o que queremos. Sentir é o elemento básico – e eu acrescentaria mais belo e fascinante – da condição humana. Nem sempre poder transformar em ações aquilo que sentimos dói bastante, tal como dói bastante chegar ao final deste filme e perceber que, por ser tão verdadeiro, devemos aceitar tudo o que ele nos diz, mas que dói, dói, caramba!

A composição sonora de 2046 é a melhor de qualquer filme de Kar-Wai, quiçá será mesmo a melhor da história desta caixinha de surpresas que é o cinema. As melodias são quentes, são calmas, são aconchegantes, mas são também tristes, desesperançosas, recheadas de melancolia. Sentimento. A composição musical e a forma como a mesma se entrelaça com cada um dos quadros de arte que vemos em tela são uma imagem de marca do cineasta, mas neste filme há uma complexidade adicional, uma camada extra de grandiosidade que se adequa na perfeição ao que nos é dado a ver. 

De cenas brilhantes para cenas brilhantes, o ritmo de 2046 é impressionante. Parece que estamos numa viagem. Uma viagem ao longo de vários anos, passando por vários lugares, convivendo com várias pessoas, tudo sempre recheado por diferentes sentimentos que se confundem e se misturam para sempre nos dizer que o mundo nunca é fácil mesmo quando se ama. Ou especialmente quando se ama. 

As personagens de 2046 apresentam a complexidade que nos faz refletir, reequacionar prioridades e querer tudo reviver. Simultaneamente, elas são tão relacionáveis que com todas elas queremos passar mais tempo. A todas desejamos o melhor, um final feliz, mesmo sabendo que finais felizes é algo que provavelmente não veremos muito por aqui. Se é fácil nos apaixonamos pela Su de In the Mood for Love nas mãos da maravilhosa Maggie Cheung, tão fácil é nos perdermos de amor por Bai Ling, incrivelmente trazida à vida por Zhang Ziyi num papel difícil e delicado de alguém a quem a vida teima em não sorrir, mesmo quando ela procura que tudo seja diferente. Nós queremos muito que ela vença. Queremos muito que consiga tudo o que quer. Mas…vocês sabem…vida. Por vezes tão bela, tantas vezes tão cruel. 

Queria ficar mais tempo a falar-vos do quanto adoro todo este filme, o quanto venero um homem que teve a coragem de fazer isto e não ir pela via mais fácil, mas o tempo é um dos conceitos centrais de 2046 e tempo é algo que não temos ilimitado. Em vez de lerem e ouvirem mais de mim, o melhor que podem fazer é ver isto o mais rápido possível. Ou rever se já se esqueçeram de sentir. 

Se muita da força de In the Mood for Love está na simplicidade, 2046 apresenta uma proposta totalmente diferente. É um filme mais complexo e mais cínico, mas, ao contrário da personagem principal, é um filme sem qualquer medo dos sentimentos que transmite e desperta em cada um de nós. Uma experiência única e essencial, mesmo para quem se recusa a sentir!

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