A ambição de Three Thousand Years of Longing resultaria melhor noutro formato

George Miller tem uma carreira muito interessante e pouco convencional. Não sendo um dos realizadores mais prolíficos do mundo (a sua primeira longa foi lançada há 43 anos e esta é a sua 10ª obra, incluindo quatro no universo Mad Max e duas no de Happy Feet) – é alguém que ficará para sempre marcado por todos os filmes da saga Mad Max, mas que tem tido também desvios interessantes para géneros totalmente diferentes com filmes como Happy Feet, Babe: Pig in the City ou The Witches of Eastwick. Não foi assim totalmente surpreendente que entre Mad Max:Fury e Furiosa – spin-off do universo de Mad Max – tenha escolhido um projeto que parece bastante pessoal e mais reflexivo, não perdendo, ainda assim, a escala de espetacularidade e ambição.

Three Thousand Years of Longing conta com Tilda Swinton e Idris Elba nos principais papéis e ambos estão à altura do que lhes é pedido. Ela vive Alithea, uma solitária “narratologista” que, por vezes, vê e conversa com seres que não são visíveis aos olhos de outros humanos. Ele é um Djinn que sai de dentro de uma garrafa antiga comprada por Alithea, que não fazia mínima ideia do conteúdo que estava dentro dessa relíquia. Acidentalmente ela liberta o Djinn e ele então pede-lhe três desejos. Alithea recusa-se sabendo, pelas várias histórias que conhece, que isso normalmente não dá bom resultado e então o Djinn começa a contar-lhe três histórias do seu passado de forma a que esta fique convencida.

A parte mais interessante do filme? Sem qualquer dúvida, todos os episódios no passado do Djinn. São histórias vívidas, cheias de pormenores interessantes, personagens enigmáticas, intrigas, segredos, vinganças, mortes…e recheadas de elementos de produção espantosos que nos permitem perceber onde foi gasto pelo menos uma boa parte deste orçamento de 60 milhões de dólares! Estas histórias são interessantes e tão boas que eu só queria que elas fossem o filme. Queria que elas fossem bem mais exploradas e que ficássemos naqueles mundos, naqueles tempos.

Acontece que, infelizmente, tudo o que se passa no presente é bastante menos interessante. Toda a conversa entre o Djinn e Alithea acontece num quarto de hotel em Istambul até depois viajarmos nas cenas finais para Londres. Nada do que acontece nos chega a suscitar um quinto do interesse das histórias passadas. E isso é mau num filme, num livro, ou em qualquer outro tipo de meio narrativo. Afinal o que está a acontecer no presente, aquilo que deveria ser o maior mistério e a maior fonte de interesse, é aquilo que menos queremos saber. Quer isto dizer que é tudo mau no presente? Não. Há diálogos interessantes e questões filosóficas levantadas. Mas há também uma história de romance que poderia ter sido fantasticamente construída num outro meio, mas que da forma como está, sabe a pouco, sabe a algo apressado, a algo difícil de engolir, mesmo com as mensagens que no final nos tenta passar, falhando até em ser tão profundo quanto pretende ser.

Depois de Fury Road, George Miller pretendeu algo totalmente diferente. Percebe-se o amor por um projeto pessoal e altamente ambicioso, mas o resultado não é satisfatório. Todas as cenas do passado do Djinn são fascinantes e mereciam ser mais exploradas, levando-me a crer que isto poderia ter sido uma excelente minissérie, mas que como filme sabe a pouco.


Three Thousand Years of Longing
Três Mil Anos de Desejo

ANO: 2022

PAÍS: Austrália; EUA

DURAÇÃO: 108 minutos

REALIZAÇÃO: George Miller

ELENCO: Idris Elba; Tilda Swinton

+INFO: IMDb

Three Thousand Years of Longing

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