Ahsoka é o melhor da essência Star Wars!

Ahsoka segue os eventos de duas séries animadas: Star Wars: The Clone Wars, e Star Wars Rebels. Duas produções consagradas, que carregam uma legião de fãs, mas que, apesar do seu sucesso, são muito mais nixadas que a maioria das produções da franquia. Ahsoka chega com a promessa de dar continuidade à jornada de Ahsoka Tano (Rosario Dawson em sua versão live-action) e seus companheiros de guerra, e assim nasce uma grande missão: fazer da série mais que um agrado aos fãs dedicados, mas um produto acessível a qualquer público.

Não assisti às animações, então posso afirmar que é com êxito que Ahsoka localiza o público geral em sua narrativa. É certo que muito do apelo emocional contido na série é incapaz de atingir quem chega fresco à Ahsoka, mas é feito um ótimo trabalho para apresentar cada uma das personagens, contextualizando para o público quem são, com quem se relacionam, como se relacionam, onde estão, onde estiveram, e para onde almejam ir, de forma surpreendente para uma série de apelo popular, sem nunca exagerar na exposição verbal.

Ahsoka engaja rapidamente, pois, acima de qualquer missão para salvar a galáxia, há uma ansiosa jornada motivada por amor e companheirismo. A missão de Ahsoka Tano, Sabine Wren (Natasha Liu Bordizzo), Hera Syndulla (Mary Elizabeth Winstead), entre outros amigos e parceiros de batalha, é extremamente pessoal. O enredo da série é uma consequência direta dos eventos de Rebels, mas a emoção contida no texto e nas atuações do elenco são intensas e genuínas o suficiente para fazer com que nos importemos com sua jornada de resgate e reencontro.

A química entre as personagens também é um fator que ajuda a série a prender o espectador, e ela se faz muito presente tanto entre os protagonistas, quanto entre os antagonistas. Hera agindo distante da ação direta, gerenciando relações políticas para auxiliar Ahsoka e Sabine, que enfrentam os inimigos de frente, enquanto combatem, ao mesmo tempo, a estranheza de uma relação problemática, marcada por descontentamentos e remorsos, e ainda tem de lidar com a sinceridade do inconveniente, porém leal droid Huyang (David Tennant), que nem sempre diz algo agradável, mas sempre fala o que é necessário dizer. A equipe de heróis é diversa, carismática, e funciona tão bem em conjunto, que é inevitável torcer para que todos permaneçam sempre próximos uns dos outros. E do lado dos vilões, nem todos têm destaque, sendo Morgan Elsbeth (Diana Lee Inosanto) nada memorável. Mas quanto à dupla de Jedis mercenários, Baylan Skoll (Ray Stevenson) e sua aprendiz Shin Hati (Ivanna Sakhno), a história é outra. O imponente ex-Jedi tem presença e um intenso tom dramático, enquanto sua perturbada discípula é assustadoramente psicótica. Os dois são o centro de um arco complexo de busca por poder e propósito, recheado de questionamentos e incertezas. É tudo muito mais cinzento que um simples e clichê objetivo maléfico, uma dualidade pouco vista em antagonistas de Star Wars.

Uma participação que pensei que não fosse funcionar, mas que acabou, afinal, sendo muito positiva, é a de Hayden Christensen. Quando anunciaram a volta de Christensen como Anakin Skywalker, logo imaginei se tratar de um mero fanservice gratuito. A minha surpresa foi perceber que o retorno do herói/vilão é, na verdade, um dos pontos altos da série. Ahsoka Tano foi a Padawan (aluna, para quem desconhece os termos de Star Wars) de Anakin, e o espírito do Jedi surge aqui em um momento crítico da jornada da heroína. A série Ahsoka tem como um grande triunfo a forma como trabalha a espiritualidade e a sensibilidade do contato dos Jedi com a força. As habilidades sensoriais das personagens não servem apenas como uma ferramenta para criar divertidas cenas de ação em Ahsoka, mas sim como um meio de evoluí-las ao fazer do seu contato com a natureza, ou seja, com a força, algo necessário para que possam se conhecer por completo, e superar seus conflitos. Anakin foi o mestre de Ahsoka Tano, e então se tornou o maior vilão da galáxia. A relação da protagonista com seu tutor é, portanto, delicada, e Anakin entra em cena para provocá-la, permitir que ela o confronte e, assim, possa fazer as pazes com seu passado. Dessa forma, a série Ahsoka chega para fazer justiça ao problemático trabalho de Christensen como Anakin, garantindo a sua encarnação do personagem mais sustância e complexidade, e também para nos fazer lembrar que Star Wars funciona muito melhor quando trabalha a força de um ponto de vista religioso, e não científico. A pureza do contato das personagens com suas habilidades especiais se torna mais espiritual, possibilitando maior poesia às narrativas deste universo fantástico. Ahsoka acerta em cheio em relação a isso, e o resultado final é lindo.

Lindo também é perceber como Ahsoka explora a tensão em seus episódios. O tom predominante da série é aventuresco e divertido, mas há diversos momentos em que a atmosfera é tomada por grande dramaticidade e ameaça. Cenários agressivos, faixas sonoras ameaçadoras e figurinos imponentes por conta dos vilões, trazem para a série um ar de seriedade e perigo real poucas vezes vistos na franquia. E é aí que entra o grande antagonista de Ahsoka, Grande Almirante Thrawn (Lars Mikkelsen). Composto por uma excelente atuação, Thrawn amedronta devido sua enorme frieza. O vilão é calculista, controlado e inescrupuloso, dono de uma tranquilidade e confiança que impõe respeito em qualquer um que ouse cruzar seu caminho. A personificação perfeita da ambição por poder a qualquer custo.

Mencionei brevemente os figurinos no último parágrafo, então aproveito para destacar o visual belíssimo da série. As personagens nunca estiveram tão bem vestidas, e com tanta criatividade quanto em Ahsoka. Os cenários são deslumbrantes, em especial o assustador e mesmerizante planeta de flora vermelha. A fotografia é embasbacante, aproveitando brilhantemente de sombras, texturas, silhuetas, contrastes de cores, entre outros elementos, para dar vida a algumas das mais bem executadas e belas cenas de toda a saga. Não é exagero dizer que Ahsoka merecia ser assistida no cinema, com a melhor qualidade de imagem possível!

E assim é a viagem através da galáxia com Ahsoka Tano, Sabine Wren, Huyang e companhia. Uma linda, intensa e sensível jornada de muita ansiedade, porém, grande esperança. Uma história que nos faz lembrar de todo o potencial narrativo, visual, temático e sensorial contido no universo Star Wars e que, ao fim de sua narrativa, decide ter coragem para chegar à conclusões agridoces, mas repletas de propósito, autoconhecimento, e aceitação, seja pessoal ou situacional. É um encerramento preocupante, mas satisfatório, e que prepara o terreno para promissores conflitos no futuro. Não sei para onde tais acontecimentos vão nos levar. Sei apenas que seja na TV, no cinema, ou em qualquer outra mídia, estarei lá, aguardando ansioso pelas consequências do ótimo clímax dessa que é uma das melhores produções de toda franquia Star Wars!


Ahsoka
Ahsoka

ANO: 2023

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 9 episódios

REALIZAÇÃO: Dave Filoni, Steph Green, Rick Famuyiwa, Jennifer Getzinger, Geeta Vasant Patel, Peter Ramsey

ELENCO: Rosario Dawson, David Tennant, Natasha Liu Bordizzo, Mary Elizabeth Winstead, Ray Stevenson, Ivanna Sakhno, Diana Lee Inosanto, Eman Esfandi, Hayden Christensen, Lars Mikkelsen

+INFO: IMDb

Ahsoka

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