A inspiração de Air

A força de Air é a marca Jordan, é a do basquetebolista não presente, é a história dos executivos visíveis e a de um realizador que é muito melhor do que o mundo lhe dá credito. 

Antes de Air, Affleck tinha já realizado obras como Argo – vencedor do Óscar de melhor filme! -, The Town, Gone Baby Gone e Live By Night. Obras de qualidade. Obras que o público gostou e que a crítica, em geral, concordou. No entanto, as manchetes sobre Affleck ainda se centram mais na sua carreira de ator ou na sua vida amorosa. Air é mais um tiro certeiro.

Neste filme, Ben Affleck realiza e atua. Faz o que quer. Domina todos os elementos em cena, leva o guião para onde sempre quis e com ele nos leva a nós espectadores. Mais do que uma condução de atores impecável, ele consegue conduzir todos os que interagem com a obra, seja de uma forma mais ativa ou passiva. A história de Air, baseado em factos verídicos e em pessoas reais, é uma história de sucesso. Uma história empresarial que poderia não resultar nas mãos erradas. Afinal fala-nos dos Air Jordan, de Michael Jordan e nunca nos mostra Michael Jordan. Ele é o centro das conversas, ele é o centro de negociações, a sua grandeza anda sempre pelo filme, mas ele não tem os holofotes. Esta é uma história de executivos, uma história de família e uma história de reinvidicação do reconhecimento do real valor que temos. 

A comandar o filme temos Sonny Vacaro (Matt Damon), um executivo da Nike que se sente frustrado por não ter as ferramentas para fazer o que quer e competir com outras marcas. Por esta altura, a Nike já é uma gigante, mas a sua divisão de ténis de desporto e, mais concretamente, de basquetebol vive dias cinzentos. A Adidas e a Converse dominam por completo esse segmento e a Nike sente muitas dificuldades em permear. Sonny acredita que é necessário fazer algo louco, algo que nunca ninguém fez. Como a Nike tem dificuldade em competir com os seus rivais, Sonny quer que todo o orçamento – que deveria ser para três jogadores – seja gasto no rookie Michael Jordan. Quer também convencê-lo com algo mais: através da criação de uma marca simbiótica, sendo ele parte integrante das próprias sapatilhas. Jordan, ainda assim, será difícil de convencer. Afinal, ele é um enorme fã da Adidas e nem quer conversas com a Nike…

Tudo o que parece – e é – uma história simples é elevado por uma sensibilidade e atenção ao detalhe impressionantes de Ben Affleck. O filme é editado – por William Goldenberg – de uma forma rápida, de uma forma enérgica, de uma forma que nos faz sempre querer descobrir o que vem a seguir, mesmo sabendo nós próprios qual vai ser o resultado final. Matt Damon – amigo desde há muito de Affleck – faz um excelente trabalho como o executivo que luta pelas suas crenças, fazendo até o que ninguém recomenda e Affleck – que é o CEO da companhia – acompanha-o na competência, fazendo-o com uma perna atrás das costas. O mesmo se pode dizer de Jason Bateman como Rob Strasser, o diretor de Marketing que entende Sonny, mas que tem também os pés mais assentes na terra.

Ainda assim, isto é um filme onde todo o elenco tem momentos para brilhar. Chris Tucker, como Howard White, faz o que há muito não o via fazer, sendo capaz de equilibrar momentos engraçados com momentos emocionais. Chris Messina tem uma prestação hilariante e fantástica – talvez a mais marcante! – como o agente de Jordan que pensa em dinheiro acima de tudo. E, claro, Viola Davis, como mãe de Jordan, parece a mãe de todos. Davis é representação, Davis é cinema. Quando ela está em cena, o ecrã parece diminuir pois ela irá comandar tudo à sua volta. Tão importante ela é para o cinema quanto Deloris Jordan o foi e é para os atletas desportivos e respetivos contratos.

É um filme de atores e um filme muito bem dirigido por Affleck, sabendo o que tem a fazer. Ele coloca-nos nos anos 80 e fez-me sentir nostalgia por uma época que eu nunca vivi. Isso observa-se nas marcas, nos jogos, nos anúncios publicitários, nas roupas ou nas expressões. E nota-se também na forma como ele adapta o ambiente corporativo dessa época. Era uma época em que as empresas – mesmo as maiores – não eram tão pesadas nas suas estruturas, onde ainda tinham princípios e mantinham-se fiéis a esses princípios. Eram empresas de pessoas, sendo que algures nos tempos transformaram-se em máquinas corporativas onde as pessoas nem a segundo plano têm direito. Eu, que ao cinema fui calçando os meus Adidas Stan Smith, saí da sala de cinema mais inspirado e um maior admirador da Nike, pelo menos, aquela Nike. Claro que isto é uma boa publicidade para a empresa, mas tudo é feito de um modo tão orgânico e tão inteligente que é impossível não deixarmos de sentir que aqueles executivos – e a empresa – devem mesmo ter orgulho neste pedaço de história.

Air tinha muito para correr mal, mas esteve sempre nas mãos certas. Alicerçado num elenco de luxo, numa rápida edição e numa enérgica realização de Affleck, mostra-nos um vibrante mundo empresarial que é sempre mais puro e nostálgico do que propagandístico. O cinema serve também para contar estas simples histórias. Histórias que servem de motivação e inspiração para perseguirmos os nossos sonhos. Tal como Jordan e os seus Air.


Air
Air

ANO: 2023

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 112 minutos

REALIZAÇÃO: Ben Affleck

ELENCO: Matt Damon; Ben Affleck; Jason Bateman; Chris Messina; Chris Tucker; Viola Davis e Marlon Wayans

+INFO: IMDb

Air

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *