All the Old Knives (ou um jantar penosamente longo)

Quando a proposta de nos reunirmos com o nosso passado nos deixa desconfortáveis, há uma óptima razão para tal. Quando a linha do dever se difunde com a necessidade de desenterrar facas antigas das costas mutuamente, essa é a manifestação prática dessa razão. Isto é a dolorosa experiência filmada que se mascara de entretenimento.

Pontos positivos: Chris Pine, filme curto de 1 hora e 41 minutos, planos iniciais de planaltos verdejantes e maresia de elevado nível paisagístico e filmográfico.

O realizador Janus Metz não soube quando desenvolver o enredo pelo uso do diálogo tanto como pela exposição. Prova disso foi o recurso a flashbacks até 3 recuos cronológicos que se repetem ao longo do filme, somando a uma cena de diálogo em que Pine explica o que aconteceu quando os flashbacks são claros o suficiente para subentender o sucedido.

Tanto corte e costura tentou fintar o espectador, ocupando-o a coçar a cabeça com a história, mas não foi bem-sucedido a disfarçar buracos narrativos de elementos mostrados e não abordados tanto como perguntas deixadas no ar que não são respondidas. Jantar indigesto.

O enredo principal abordado assenta em espionagem. Já vi este enredo muito bem implementado há DEZANOVE anos atrás em The Recruit (2003). Ter passado tanto tempo e ter assistido a este retrocesso foi particularmente doloroso.

O sub-enredo da trama amorosa que se envolve na linha principal a tratar foi barato, com uma cena de sexo vulgar e francamente desconexa do tom geral do filme. Sim, estou a queixar-me de um segmento que me permitiu ver os seios da Thandiwe. Foi tão despropositado que frustradamente chorei por ela. A importância deste sub-enredo pretende manifestar-se como fundamental para a história, mas foi fugaz, contrastando com o observável esforço em no-la ter sido impingida, como mau queijo-fresco presente nessa salada de flashbacks – necessitei de referir comida para permanecer com vontade de continuar a escrever.

Thandiwe Newton não sabe chorar. É escandaloso que uma actriz com uma carreira tão recheada, onde tem a sua quota-parte de papéis profundos e dramáticos não tenha aprendido ou talvez perdido essa ferramenta que eu considero OBRIGATÓRIA à disposição de qualquer actor. Entendi que em Reminiscence (2021), como interpreta uma alcoólica, não tenha saído a proverbial lágrima quando até se encaixaria em alguns momentos do filme, mas dei de barato porque assumi ser um dos efeitos do alcoolismo de longa duração (desapego emocional ou ressecação dos sacos lacrimais). Vai na volta a senhora afoga mágoas na vida real e refugia-se no copo. Não obstante, podia canalizar essas mágoas para as cenas e tentar aliviar os custos de produção na compra de ampolas de soro fisiológico.

Lawrence Fishburne foi ganhar o cheque fácil, tendo-se deixado usar para credibilizar este telefilme difundido em plataforma de stream (Amazon Prime).

Sou um amolador triste, sem fôlego para soprar a flauta de pã, sem forças para pedalar a bicicleta, sem vontade para afiar facas. Estas foram velhas, embrulhadas como novas e luzidias, foram-me atiradas, mas não cortaram. Só me irritaram a pele e a disposição.


All the Old Knives
All the Old Knives

ANO: 2022

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 101 min.

REALIZAÇÃO: Janus Metz

ELENCO: Chris Pine, Thandiwe Newton, Lawrence Fishburne

+INFO: IMDb

All the Old Knives

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