American Fiction e a ficção bem real

Há filmes mais fáceis de falar e escrever do que outros. American Fiction é um daqueles filmes que tem que ser visto para ser absorvido, bem como todas as mensagens que procura transmitir. Na história, um professor e escritor sente-se frustrado. O seu talento é reconhecido pela comunidade, mas os seus livros não vendem o suficiente. Para piorar a situação, não consegue colocar a sua nova obra no mercado por não ser “negra o suficiente”.

Raramente começo pelas atuações, mas aqui não há como contornar o que Jeffrey Wright faz no papel de Thelonious “Monk” Ellison. Wright é um ator que sempre transporta algo seu para os papéis que vive e aqui não é diferente. Nada de errado há com isso, pois o carisma de Wright assemelha-se ao de grandes da história do cinema e não há como fugir disso. Aqui, no entanto, acrescenta-lhe camadas de realismo e de lutas interiores que ajudam a tornar tudo o que vemos credível e com os pés bastante assentes no chão. A sua subtil expressividade eleva momentos, como quando dialoga com a sua “rival” que escreve o que sabe que o público quer ou quando tem incómodas conversas com as pessoas de si mais próximas. Falando de pessoas mais próximas, o seu irmão, Cliff, talvez não esteja tão próximo como irmãos devem estar, mas é uma personagem magnífica e complexa. Interpretado na perfeição pelo sempre excelente Sterling K. Brown, os seus traumas e consequências são evidentes e ajudam a completar o puzzle de uma família disfuncional, como quase todas o são. O destaque? Uma brilhante conversa com o seu irmão à porta de casa num momento que deveria ser de celebração, mas que serve para a exteriorização de muitos dos sentimentos que estão guardados no íntimo de Cliff.

American Fiction é um filme calmo. Pelo menos, na aparência. Cedo, no entanto, percebemos que essa aparente calmaria não impedirá momentos surpreendentes ao virar da esquina, atacando-nos de forma rápida e eficiente como se de um meticuloso tiro de sniper se tratasse. Isso muito se deve a um intelgentíssimo guião que nunca opta por se esconder das questões difíceis. Aborda temas complexos como a família, o racismo, a identidade, a sexualidade ou a solidão de uma maneira muito perspicaz acrescentando sempre pitadas de humor que funcionam como um bálsamo para a alma. Tudo acompanhado por uma melodiosa e atmosférica banda-sonora que faz com que tudo entre no nosso subconsciente de forma bastante natural.

Esta é a estreia de Cord Jefferson na realização e no argumento de uma grande produção de Hollywood e só podemos ficar super entusiasmados com o que daqui pode vir. Sim, já o conhecíamos de séries como Watchmen e The Good Place, mas cinema não é televisão. Aqui não há oportunidades para recuperar mais à frente. Aqui não há espaços para momentos menos bons. A sua escrita é ponderada, bem trabalhada, mas sempre pronta para uma alfinetada no momento certo, capaz de nos colocar a pensar sobre observações e frases muito usadas no nosso dia a dia de forma aparentemente inocente mas que sempre vão deixando marcas nos seus receptores. As quase duas horas passam sem se dar conta e se mais 30 minutos tivesse, nada se perderia, pois isso até permitiria desenvolver algumas sub-histórias que mereciam mais tempo. De qualquer forma, Jefferson sabe como concluir isto. O final fecha arcos, entrega mensagens e volta a mostrar que o escritor não tem qualquer problema em provocar o espetador.

American Fiction fala-nos de identidade e pertença de uma forma bastante inteligente e provocatória. Faz-nos rir, faz-nos chorar e faz-nos, acima de tudo, pensar. Jeffrey Wright é incrível, Sterling K. Brown sempre brilhante, mas a grande surpresa é a forma como Cord Jefferson entrega uma obra destas na sua estreia na escrita e realização de uma longa-metragem.


American Fiction
American Fiction

ANO: 2023

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 117 minutos

REALIZAÇÃO: Corey Jefferson

ELENCO: Jeffrey Wright; Tracee Ellis Ross; John Ortiz; Erika Alexander; Issa Rae; Sterling K. Brown

+INFO: IMDb

American Fiction

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