Amsterdam (ou como filmar alma, estética e até ter um enredo)

Antes de mais, o meu regresso triunfal a uma sala de cinema (é um evento. Precisa ser destacado como tal, mesmo que o último filme visitado na sua casa fora há nem 6 meses.) De seguida, o tesão na aposta (pedi este filme a dedo para falar sobre ele. Não considero haver grande coisa em exibição e acho que respeito o meu dinheiro e tempo, ambos recursos finitos por cá) e depois a violação de outro princípio de consumo filmográfico – a expectativa (tive de pesquisar sobre o que ia pagar para tentar garantir sucesso). Não fui defraudado.

David O. Russell não é estranho a “almar”.

“Almar” é um termo que achei importante criar para aplicar neste texto, para este filme em particular, apesar de condensar esta execução no termo para a repescar mais tarde durante o texto. Consiste na capacidade de transpor para a tela, para o espectador a ternura, o sentimento, os laços do protagonista com o mundo ou entre protagonistas.

Almou em The Fighter, Three Kings, Silver Linings Playbook, a espaços, em escala, ajustado ao enredo e com propósito de prender pela empatia de pessoas estarem a assistir a pessoas a fazer coisas.

Em Amsterdam, este senhor cativa a atenção pela estética, prende a atenção pelos planos apertados e semi-apertados dos intérpretes e recompensa a atenção dispensada com diálogo jovial, de troca orgânica e com recurso forte na expressividade. Isto deu alma. Não enjoou, não agastou e não deixou escapar pitada do que quis contar para o mais ávido observador do “claramente vai acontecer isto, aquilo, aqueloutro”.

…O que me remete ao texto como um todo. As temáticas abordadas são mais que muitas e há de tudo um pouco, sem enorme ambição exploratória do concreto, mas as mensagens foram transmitidas com sucesso, graciosidade, propósito e, palavra do texto de hoje: alma. Já o subterfúgio perfeito para justificar esta inexploração será PG-12.

Colocar John David Washington num contexto de soldado remetido a cidadão de quinta categoria, que se insurge com os seus escalões para conquistar dignidade, ser-lhe reconhecido valor e por fim, ter o respeito inabalável dos seus pares é um aceno de graciosidade ao que o seu pai Denzel Washington interpretou em Glory. Isto é alma.

Margot Robbie é linda. É loira (o que pessoalmente abomino) mas aqui, Valerie Voze é morena e isso ajudou-me a entender em pleno o encanto que Hollywood tem por ela. É uma actriz lindíssima. Mas a sua beleza não é definida como exótica, diferente, singular ou única. É uma beleza que defino por sugadora da tela. Ainda para mais quando o recurso ao plano semi-apertado foi ferramenta sobeja para estabelecimento de tons, ritmos, desenvolvimento e abrandamento do enredo para os momentos a destacar. Este parágrafo a definir Margot como linda não é despropositado ou libidinoso. Tem o propósito de entender que a rapariga é tremendamente talentosa a fazer disso ferramenta activa para as suas interpretações, esta em particular.

Há beleza no desespero, há beleza na alegria, há beleza na sedução, há beleza na mágoa, na inquietude, na obstinação, na teimosia. Estes sentimentos foram-me passados não só pelos diálogos e interacções que Valerie teve com os demais, mas com a expressividade quando a tela trancava em si. E Valerie não é a personagem que considero mais profunda do filme. Aliás, até nisso, o realizador balanceou entre os protagonistas.

A alma que Burt Berendsen emana do seu pré-guerra e pós-guerra é de um alcance absurdo com a subtileza das escolhas que Christian Bale conferiu ao senhor, sem descaracterizar a personalidade nuclear de quem Burt é. Só o seu arco sozinho é um estudo de representação em como almar. Bale é um extraordinário actor ou eu fui “extraordinarizado” por tê-lo testemunhado na grande tela.

Voltando a John David Washington na pele de Harold Woodman, é empoderado, superador, apaixonado, terno, o elemento de virilidade e fisicalidade deste filme e o grande aglomerador de personalidades dissonantes a espaços, mas que acabam por nunca o ser, por mérito da personagem no todo e porque o filme nunca promove o conflito aberto entre protagonistas “do mesmo lado” apesar de diferendos fugazes que se esvaem pela constante humorística e semi-leve de Amsterdam.

A filmografia é de um indelével bom-gosto. A Nova Iorque de 1933 é lindíssima quando aparece nos planos de estabelecimento apesar de não ser sobre o enquadramento espacial, apesar de ser este o período escolhido para contar esta história. A filmagem é afinadíssima e se Margot é lindíssima por si só pelo supra-referido, os demais pontapés de estrelas que se envolvem neste filme estão esteticamente inefáveis para o que visam representar.

A saber: Anya Taylor-Joy, Alessandro Nivola, Chris Rock, Mike Myers, Taylor Swift, Timothy Oliphant, Rami Malek, Zoe Saldaña, Robert De Niro, Michael Shannon, Ed Begley Jr., são integrantes deste elenco. Ridículo, não é? Pois é. Se não fosse um filme de David O. Russell, facilmente estaria a falar de um filme de Wes Anderson. E por uns vagos instantes pareceu isso, pela beleza quase plástica da coisa. Mas não foi e não é. E gostei.


Amsterdam
Amsterdão

ANO: 2022

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 134 min.

REALIZAÇÃO: David O. Russell

ELENCO: Christian Bale, John David Washington, Margot Robbie, Mike Myers, Michael Shannon, Anya Taylor-Joy, Rami Malek, Alessandro Nivola, Zoe Saldaña, Robert De Niro

+INFO: IMDb

Amsterdam

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