An Cailín Ciúin (ou a melancolia da felicidade)

O silêncio é ensurdecedor quando o subtexto exprime o que qualquer palavra tornaria parco em se fazer ouvir.

O minimalismo tem um lugar especial comigo. Ou corre bem e é profundo e marcante, ou corre mal e é snobe e arrogante.

A linha entre muito bom-gosto visual, auditivo e narrativo em se fazer pouco ou apenas o estritamente suficiente para entregar uma mensagem e o pretensiosismo de injectar substância em “nadismos” medíocres de imagens, sons ou estórias é perigosamente ténue.

The Quiet Girl (An Cailín Ciúin em irlandês) é o título ideal para uma interpretação inolvidável que ou exigiu imenso da protagonista Catherin Clinch para expressar o seu diálogo mudo, emoções, sensações e desejos ou foi a coisa mais fácil de fazer ao ter sido seleccionada a garota mais tímida de toda a Irlanda.

Não obstante, desde Mass (com a mesma composição minimalista, com a sua força debruçada sobre a representação pura e dura entre 4 adultos com algo que os une pelas piores e melhores razões) que não ficava estarrecido com o que ainda não vi e tenho a explorar sobre cinema e os caminhos não-convencionais de entregar um enredo.

Este filme curto e grosso de 1 hora e 34 minutos tanto devasta no seu final inconclusivo quanto no clímax que entrega na pontuação do terceiro acto, que nos embalou por toda a viagem desde o primeiro plano paisagístico até ao último plano apertado.

Já em The Wonder, Irlanda rural mostrou ser o enquadramento perfeito para transmitir introspecção, profundidade e contrastante leveza absorta distractiva com o nada mais natural de fauna e flora com fundo acinzentado de inquietação húmida com a constante imprevisível chuva como laço que ata todo o tom do filme. O mesmo aconteceu neste filme. E que tristemente lindo de ver…

Outro dispositivo dramático usado de forma mínima e mestra foi a manipulação do som. Os silêncios sublinharam o “ruído branco” para adensar a carga de certas sequências e diálogos ou ausência dos mesmos para transmitir o pretendido das cenas. Os barulhos do quotidiano sem necessidade de música de fundo conferem crueza e realidade do dia-a-dia da quinta, da escola, de sua casa, da casa dos primos, que auxiliam no senso de normalidade que a menina Cáit agora tem acesso e que antes cunhavam a agressão que sofria por simplesmente viver.

As representações de Carrie Crowley como Eibhlín esposa de Seán interpretado por Andrew Bennett são o dínamo que faz Cáit brilhar. Ambos têm uma química como casal de décadas de matrimónio que bafeja a tela sempre que interagem ou estão no mesmo enquadramento sem trocar uma palavra, um olhar, apenas reacções ou acções tímidas ou envoltas em subtexto que nos indicia de como estão, estavam e passam a estar.

Ganha-se tanto mais a assistir a este filme que a falar dele. Aconselho fortemente pois ensina sobre a vida, como a mesma vida afecta diferentes intervenientes directos entre si e clarifica o discernimento da zona cinzenta da nuance entre o bom e o mau que faz duma pessoa boa ou má com potencial para ambos sem saber o que é ou quer ser.

Fui, entretanto, ler sobre a ficha técnica como sempre faço para dar o devido crédito ou crítica a quem de direito e deparo-me com a informação de que An Cailín Ciúin é forte candidato a coisa brilhante que premeia arte. Como espectador, já me ganhou. Parabéns, Colm Bairéad: fizeste justiça ao livro “Foster”.


An Cailín Ciúin
An Cailín Ciúin

ANO: 2022

PAÍS: Irlanda

DURAÇÃO: 94 min.

REALIZAÇÃO: Colm Bairéad

ELENCO: Catherine Clinch, Carrie Crowley, Andrew Bennett

+INFO: IMDb

An Cailín Ciúin

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