O grande potencial desperdiçado de Antlers

Um grande leque de atores. Uma história de fundo que envolve povos nativos e mitologias passadas. Um monstro com um design fantástico. Paralelismos com assuntos pesados e importantes, como o abuso infantil. Uma atmosfera negra. Mortes bem elaboradas. Tudo isto está aqui presente, o que só pode significar que isto é excelente, certo? Infelizmente, não é bem assim. Antes de entrar mais ao pormenor onde Antlers não me convenceu, gostava de contextualizar a história do filme.

Lucas (Jeremy Thomas) é uma criança que vê algo de macabro acontecer ao seu pai. Mas ele não conta a ninguém e todos pensam que tudo está bem. A sua professora, Julia (Keri Russell) começa a desconfiar de que algo de errado se passa com o rapaz e, com a ajuda do seu irmão polícia, Paul (Jesse Plemons), começa a investigar mais a fundo a origem das suas desconfianças, nunca esperando aquilo que vai ter que enfrentar. O monstro que atacou o pai de Lucas faz parte do folclore nativo norte-americano, sendo regularmente chamado de Wendigo, uma criatura das florestas que devora homens. Na realização temos Scott Cooper – a estrear-se no terror, mas com filmes como Hostiles no seu currículo – e um dos produtores é o grande Guillermo del Toro.

 

Tudo isto prometia bastante e os sucessivos adiamentos que o filme sofreu – por culpa da pandemia – apenas fizeram aumentar a antecipação. No entanto, é caso para dizer que a montanha pariu um rato. Antlers começa num ritmo lento – como eu esperava -, muito focado nas relações familiares e no trauma. Nada de errado com isso, era o caminho natural a seguir para a construção de uma história em crescendo. O problema está na parte da construção. Antlers parece ficar estagnado no ritmo e no desenvolvimento da sua história, tendo dificuldades em se desamarrar do que deveria ser o primeiro ato ou parte do mesmo.

Seguimos traumas e relações familiares e, de vez em quando, o filme quer atiçar-nos, dando-nos um pequeno vislumbre do monstro, mas nada tenso, nada que realmente nos faça pensar que nos quer fazer algo – quer apenas mostrar-nos que está ali. É isso errado? Não obrigatoriamente. O monstro aqui mostra-se no seu esplendor com cerca de 50 minutos de filme, mas sabemos que grandes clássicos – como Jaws – optaram por essa abordagem e saíram-se incrivelmente bem. O problema para mim está no facto do filme nunca fazer crescer a sua chama. A chama dos primeiros cinco minutos é a mesma que temos com uma hora de filme. E os diálogos criam tensão? E os silêncios? Nada. É tudo muito formulaico, muito arrastado, sem muito para dizer, mesmo partindo de temas tão densos, como a lenda de Wendigo ou os abusos infantis. Em certos momentos, vemos Julia e Paul a terem conversas onde falam por cima um do outro. Percebi o que se quis fazer. Cooper quis dar um certo realismo às cenas, mas…convinha que houvesse algo a dizer com sinceridade e que essas cenas fossem impactantes, não se ficando pelo meio caminho. Não é apenas por nos mostrar conflito que nós nos iremos importar com esse conflito.

Apesar de vistoso tecnicamente (principalmente no campo visual, já que não fiquei convencido na música genérica que acompanha grande parte da ação), Antlers é monótono, aborrecido e repetitivo. Os últimos 20 minutos são, no entanto, excitantes, muito bem realizados e com um forte impacto. O que ainda me deixa mais a bater com a cabeça…Eu sou um grande fã de slow burns. Mas construir um bom slow burn é uma arte e aqui, infelizmente, essa arte não é dominada. O terceiro acto de Antlers é muito bom e isso só me deixa ainda mais frustrado com todo o potencial que tinha e desperdiçou.


Antlers
Faminto

ANO: 2021

PAÍS: EUA; México; Canadá

DURAÇÃO: 99 minutos

REALIZAÇÃO: Scott Cooper

ELENCO: Keri Russell; Jesse Plemons; Jeremy T. Thomas

+INFO: IMDb

Antlers

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