Army of The Dead prova que Snyder recuperou a sua alegria

Nós sabemos que remakes no cinema de terror têm, habitualmente, uma má fama. Nem sempre justa, é certo, mas a maioria das vezes o público já vai de pé atrás para remakes, especialmente se falamos de filmes clássicos, de referência para o género. E foi num projeto do género que Zack Snyder se deu a conhecer ao mundo em Dawn of The Dead, pegando num clássico de mortos-vivos (e, curiosamente, o filme 2 da saga dos “Mortos” de George A. Romero). Surpreendentemente, o filme resultou, não só como homenagem ao clássico filme, mas também ao introduzir novos e interessantes conceitos. Foi um sucesso para a crítica e público e Zack Snyder foi, desde aí, um nome a ter em conta no mundo do cinema, com outros importantes títulos a seguirem-se como 300 ou Watchmen.

Até Snyder ter pegado em todo o universo da DC. Confesso que não sou o maior fã de Man of Steel, nem de Batman vs Superman. Confesso que só vi a versão alargada da Liga  da Justiça, saída este ano, e que gostei da mesma, embora razoavelmente, talvez apenas ligeiramente mais do que Man of Steel. E por isso, posso dizer que tenho sentimentos mistos quando falo de Snyder como realizador, embora sempre simpatizando com o homem e pelo que passou na sua vida pessoal e familiar.

Chegamos, assim, a este Army of The Dead, um mega projeto de zombies para a Netflix e quase que um regresso às origens para Snyder. Desde cedo sabia-se que este filme iria ser bem diferente de Dawn of The Dead – que tem uma abordagem bastante mais séria à temática – e que seria um filme de assalto, com zombies à mistura (na verdade, não fica esclarecida a origem dos infectados e, por isso, o termo zombie tem que ser considerado através de uma definição alargada do mesmo), numa abordagem mais livre, sem ligar muito a regras (não escritas) do género. Não gosto de apontar o dedo ao público (eu sou o público, todos somos o público), mas se alguém esperava algo diferente deste filme, é muito mais sua a responsabilidade do que de Snyder, já que Army of The Dead cumpre exatamente com o que fora prometido em todo o material promocional que o antecedeu – sejam trailers, clips ou até entrevistas.

Terror é a minha praia e a fusão de acção/terror/comédia é sempre complicada de sair bem sucedida. Sei que Army of The Dead divide opiniões (as reviews variam entre 1 a 5 estrelas, literalmente) e parece até ter conquistado mais a crítica do que o público, mas é exactamente aquilo que eu estava à procura, nem mais nem menos. O melhor elogio que posso deixar a Snyder é que não me senti enganado, quase como se fosse ao McDonald’s e soubesse exatamente o que iria receber quando viesse o meu Big Mac. Conseguimos perceber quem é o paciente zero, mas não a sua origem, o plot é formulaico quanto baste, é um pouco all over the place e pouco focado (como habitual no realizador), mas também porque o que Snyder aqui nos quis dar foi entretenimento à antiga, com poucas regras ou complexidade, com muito sangue e crowd pleasers à mistura, incluindo diversas homenagens a filmes clássicos (ao próprio Dawn of the Dead, mas até a filmes como Apocalypse Now).

A banda sonora cumpre na perfeição a sua missão (sei que há por aí quem odeie “needle drops” – músicas inseridas numa cena para tentar enquadrar-se perfeitamente com o tom da cena – mas eu gosto, na medida certa), os efeitos especiais são excelentes e Snyder dá-nos extamente o que se exige. Isso inclui a perfeita utilização daquele tigre-zombie (!) na cena que mais desejámos, a forte carga emocional na relação entre Dieter e Vanderohe, a sua aposta num Dave Bautista bem mais ator do que já vimos antes ou nas fortíssimas personagens femininas que ele soube construir.

O cinema é mesmo assim: nada agrada a todos. Para mim, Army of The Dead entra facilmente no top 3 de Snyder. Para outros, entrarão as suas incorporações pelo universo DC, que, pessoalmente, considero não merecerem honras do seu top 5 (nenhuma delas). Todos temos diferentes expectativas e diferentes preferências e, por isso, também, diferentes realizadores podem ter diferentes visões sobre o mesmo material de fonte. Army of The Dead é exatamente o que eu quero ver num filme do género: é cheesy sim, mas é isso que eu quero, tal como adorei, por exemplo, a abordagem de Tarantino a Death Proof.

Por fim, deixo um pedido: podemos deixar Snyder a fazer exclusivamente filmes de zombies? Ele parece divertir-se tanto quanto nós e encontra sempre a fórmula certa, seja numa abordagem mais realista (Dawn of the Dead) ou mais excêntrica, como aqui. Sangue, tripas, ritmo frenético, ação, fantásticas mortes e personagens estúpidas. Tudo o que eu poderia pedir!


Army of the Dead
Exército dos Mortos

ANO: 2021

PAÍS: USA

DURAÇÃO: 148 minutos

REALIZAÇÃO: Zack Snyder

ELENCO: Dave Bautista, Ella Purnell, Ana de la Reguera, Omari Hardwick, Nora Arnezeder, Matthias Schweighöfer, Raúl Castillo, Tig Notaro

+INFO: IMDb

Army of the Dead

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