Revisualizando: As Boas Maneiras é terror, musical, folclore e brasilidade

Somos recebidos com créditos repletos de molduras exuberantes e um fundo florido. Então, com o rodar do longa, nos deparamos com belos cenários artificiais criados a partir de matte painting, técnica que faz uso de pinturas para compor os quadros cinematográficos. Assim, o filme de Marco Dutra e Juliana Rojas (argumentistas e realizadores) diz ter muita personalidade, além de assumir não ter compromisso com o realismo, o que resulta em um conto de fadas com ares de folclore brasileiro.

O filme conta a história de Clara (Isabél Zuaa), que é contratada por Ana (Marjorie Estiano) para ser babá do seu filho. Enquanto o bebê não nasce, Clara trabalha como empregada de Ana. Com a convivência diária, cria-se uma relação forte entre as duas, até que, depois de alguns acontecimentos estranhos, uma fatídica noite de lua cheia vem a mudar a vida das duas por completo.

As Boas Maneiras é uma história fantástica que se afasta do realismo para contar sua história, por isso, a realização optou por uma forte presença da direção de arte em cena. Os belíssimos cenários compostos por pinturas impressionam pois criam uma atmosfera fabulosa e mítica para o longa. Mas, além disso, os espaços relacionados a cada uma das personagens da trama são tão meticulosamente pensados como uma extensão de suas personalidades, que se torna essencial apreciar tais detalhes para uma completa compreensão das mesmas.

A arte brilha também nos momentos musicais do filme. Pois sim, As Boas Maneiras não se trata apenas de uma fantasia. Falamos aqui também de um musical. Um musical de terror. A canção de um figurante que narra um momento extremo na vida de Clara, que acabara de vivenciar uma experiência horrenda e sanguinolenta, composta por impressionantes efeitos práticos e um uso exemplar de animatrônicos, e o canto de uma mãe atormentada pelo desespero de ter seu filho desaparecido, tomada por uma iluminação lúdica que invade a cena brevemente para descolar o momento da realidade em que as personagens vivem, impressionam pela ousadia e criatividade.

Os flashbacks apresentados são criados a partir de animações em formato de cordéis, literatura popular típica do Nordeste do Brasil. Do teor dessas cenas, até a ambientação da conclusão em uma festividade herdada da Europa, mas muito típica da cultura brasileira, a festa junina, As Boas Maneiras tem cara, gosto e cheiro de brasilidade. A sensação de assistir a esse filme se faz muito próxima a de ler e ouvir contos folclóricos da cultura brasileira.

Já as atuações, por outro lado, não impressionam como os aspectos técnicos do filme, especialmente quando falamos de Isabél Zuaa. Mas não se deixe enganar pelo mau trabalho apresentado pela protagonista. A atriz que vive Clara é péssima, e isso fica ainda mais evidente quando contracena com Marjorie Estiano, que está ótima no papel da mimada Ana. Porém, se isso for motivo para desistir de assistir ao filme, perderá de acompanhar uma bela história sobre o poder das relações humanas, e os limites que o amor incondicional podem nos levar a romper. Afinal, a qualidade técnica e a sensibilidade do argumento compensam as falhas nas representações, que passam a ser vistas como desagradáveis, porém meras distrações.

Repleto de violência, terror e amor, do carnal ao maternal, As Boas Maneiras encanta com sua criatividade, beleza visual e sensibilidade textual, ao mesmo tempo que impacta com sua brutalidade e sanguinolência. Essa obra é pura essência da cultura brasileira, e um ótimo exemplo da qualidade e criatividade presentes no audiovisual do nosso país.

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