ESPECIAL MOTELX: A Ashkal falta coragem para ser mais

Sou um enorme fã de terror de todas as geografias, não me canso de o dizer. Fácil é encontrar em cada região, país, cidade ou vila histórias que inspirem e que transcendam os locais de onde elas surgem. Muita pena tenho quando sinto esse potencial ser desperdiçado através de execuções que procuram tanto a contemplação e os aspetos mais artísticos, esquecendo a alma das suas histórias.

Ashkal começa de forma calma, mas suscitando interesse. Começa com um aparente suicídio. Mas duas mortes em tudo semelhantes no mesmo local em menos de uma semana não pode ser coincidência, certo? Essa é a pergunta que faz Fatma, interpretada bastante bem por Fatma Oussaifi naquela que é a primeira longa onde vemos o seu nome creditado, o que não deixa de surpreender. Ela é o que nos vai prendendo ao filme, o maior motivo de interesse, pois a sua força parece mover montanhas. Infelizmente, pouco mais parece mover seja o que for. O realizador – Yousseff Chebi – procurou trazer-nos uma obra contemplativa, reflexiva, que muitas vezes anda na zona cinzenta entre o que é ou não é fantasioso, só se aventurando a abraçar um dos lados no seu clímax. Nada de errado, não fosse o facto de até aí termos tido um filme com muito poucas cenas dignas de registo, cenas que fizessem avançar a trama ou que fizessem crescer o nosso interesse.

Ashkal procura também ter algo a dizer socialmente. Toca ao de leve no tema do racismo e de como certas comunidades são vistas na Tunísia. Toca na corrupção policial e na luta pela justiça dentro da Justiça. Toca na religião e como a mesma impacta no comum cidadão e em comunidades inteiras. Toca em tudo isso, mas no fim tem muito pouco a dizer sobre cada uma dessas coisas, nunca explorando suficientemente qualquer dessas temáticas, ficando a meio caminho de uma decisão mais corajosa que talvez seja a mais sensata para garantir o ganha-pão de um realizador que ainda vai começando.

Aqui e ali há belos planos e sequências para serem vistas. O jogo de cores é bastante bem aproveitado utilizando a natureza e as transições entre cenas diurnas e noturnas são bastante subtis e bem trabalhadas. O realizador claramente procurou a vertente mais arthouse, mas será que isso não deverá ser um acrescento, uma cereja no topo do bolo, em vez de fazer disso o próprio bolo? No final, fico com um gostinho amargo na boca. Todos estes traços culturais dão-nos o background perfeito para uma boa obra de terror. Infelizmente, a Ashkal falta a coragem de ir mais além, contentando-se com bonitos planos e algum simbolismo.


Ashkal
Ashkal

ANO: 2022

PAÍS: Tunísia, França, Catar

DURAÇÃO: 92 minutos

REALIZAÇÃO: Youseff Chebbi

ELENCO: Fatma Oussaifi; Mohamed Grayaâ; Aymen Ben Hmida

+INFO: IMDb

Ashkal

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