Bardo é o sonho surrealista de Iñarritu

O cinema é sempre capaz de provar grandes surpresas. O que toca a uns, não toca a todos e nunca sabemos de onde poderá vir algo com que inesperedamente nos identificamos. Ia com baixas expetativas para este Bardo, falsa crónica de unas cuantas verdades. Não porque Alejandro González Iñarritu seja um mau realizador, antes pelo contrário. No entanto, o mexicano é o tipo de realizador que temia com este tipo de filme. Mesmo nas suas outras obras, consigo vislumbrar alguma “arrogância artística”, logo pensei que uma obra semi-biográfica marcadamente surrealista só poderia resultar num enorme exercício masturbatório que a cada canto se sentisse superior ao seu espetador. Não foi o caso, embora exija muito de nós, essencialmente ao nível da abertura da mente para metáforas e paralelismos inesperados, até absurdos, diria.

A história fala-nos de um jornalista, documentarista e artista mexicano que vive nos EUA e regressa por um certo período ao México passando por uma crise existencial que lhe fará recordar quem foi, perceber quem é e decidir quem pretende vir a ser.

Durante largos minutos não tinha a certeza se estava a gostar ou não do que estava a ver, mas estive sempre intrigado. O conceito vai beber muito a clássicos como Fellini 8 ½, mas Iñarritu acrescenta elevadas doses de surrealismo que demonstram outras influências. Algumas dessas influências podem vir de bem perto, com Buñuel à cabeça. De forma a que percebam que tipo de surrealismo é este, basta dizer que a cena inicial do filme é a de um parto em que os doutores percebem que o bebé não pretende sair e então fazem o processo inverso para que o bebé volte para o sítio de onde veio. Claro que isto é metafórico e claro que há uma explicação menos cómica e muito mais dramática para os reais acontecimentos, mas não se poderia pedir uma cena mais fora do comum para que, de imediato, afastasse quem gosta de obras apenas assentes na realidade e numa narrativa bem definida e clássica.

Este tipo de cenas vão-se repetindo ao longo de vários episódios do filme – e, talvez, a falta de conexão entre os mesmos seja um aspeto negativo do mesmo -, mas o que a princípio parece ser apenas humor negro através de expressividade surrealista rapidamente se transforma no que são os temas principais do filme. Os temas são muito pessoais para Iñarritu – que, aliás, fala deste filme como algo semi-biográfico… – e são para muita mais gente. Quando Silverio (Daniel Cacho), a personagem principal, fala do síndrome do impostor sabe que fala para os artistas. Quando o mesmo fala de viver entre dois países, querendo sentir-se em casa nos dois, mas não se sentindo em nenhum deles, fala para os milhões de emigrantes espalhados pelo mundo fora. Quando fala da Amazon comprar um Estado Mexicano, ele sabe o que está a querer dizer acerca do capitalismo e do corporativismo. Tal como sabe quando tem uma fascinante conversa com um militar colonizador – sim, do passado longíquo! – ou quando aborda os luxo na miséria no qual muitos vivem no México ou…quando também tem a criticar a sociedade norte-americana e a sua falta de empatia para com o próximo. Tudo isto é feito com inteligência por Iñarritu. Tudo é brutalmente agressivo, mas tudo é também feito através daquela capa de sonho vivo que poderá tornar tudo mais fácil de engolir.

Claro que com quase 2h40 de duração e num filme semi-biográfico é essencial que a família seja também um grande destaque e aqui o filme também não falha. Se Daniel Cacho é a grande estrela do filme, com quem passamos todos os momentos e entramos – ou não – na sua mente turbulenta, tanto a sua esposa Lucia (Griselda Siciliani), quanto o seu filho Lorenzo (Iker Solano) e a sua filha Camila (Ximena Lamadrid) são personagens com espaço para abordar não só os problemas familiares, como também para mostrarem-nos diferentes visões sobre o país, sobre a emigração, sobre o racismo, sobre a sua forma de vida.

Ainda assim, não se pense que este filme é para todos. Não é. Num filme de artista sobre artista – muito dele sobre o próprio criador – não é de admirar que o cineasta mexicano se tenha excedido aqui e ali, seja na duração de algumas cenas (e pensar que isto já foi fortemente editado e cortado depois do circuito dos festivais!), seja em alguns exageros visuais que parecem lá estar apenas para um efeito de choque. De qualquer forma, os pontos positivos largamente suplantam os negativos, havendo ainda toda uma panóplia de bons argumentos técnicos a destacar, desde uma fantástica cinematografia – planos abertos brutais, cores quentes, uma câmara com vida – a uma forte e bem característica banda-sonora, com alma mexicana, que encaixa perfeitamente no tom do filme.

Esta é uma película destinada a ser incompreendida como incompreendidos são todos aqueles que vivem entre dois mundos. Viver entre dois países e duas culturas. Viver entre o mundo real e o imaginário/artístico. Inãrritu, por vezes, abusa de um certo pretensiosmo na forma como emprega o surrealismo, mas no final conquistou-me através de cenas únicas e originais e, principalmente, pelo que tem a dizer e como o diz.


Bardo, falsa crónica de unas cuantas verdades
Bardo, Falsa Crónica de Umas Quantas Verdades

ANO: 2022

PAÍS: Mexico

DURAÇÃO: 159 minutos

REALIZAÇÃO: Alejandro G. Iñárritu

ELENCO: Daniel Giménez Cacho; Griselda Siciliani; Ximena Lamadrid; Iker Sanchez Solano

+INFO: IMDb

Bardo, falsa crónica de unas cuantas verdades

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