Black Mirror sempre relevante e disruptivo até consigo próprio

Black Mirror é uma das séries mais importantes da história da televisão. Isto poderia ser uma opinião, mas é um facto. Enquanto muitas das nossas séries favoritas são pouco relevantes se delas retirarmos o contexto do entertenimento, Black Mirror conseguiu sempre entreter, ao mesmo que, de forma ambiciosa, foi chamando a atenção para várias problemáticas da nossa sociedade e da forma como vivemos. 

Regressa agora para uma sexta temporada, mas eu nunca olho sequer para a série por temporadas. Cada episódio é um todo. Cada episódio é um mundo. Por isso mesmo me oponho a classificar temporadas da série. Ainda assim, irei julgar de forma resumida os episódios que constam desta fornada, esperando que isto não fique por aqui. 

Para os menos atentos ao longo de todos estes anos…Black Mirror não é sobre tecnologia. Black Mirror utiliza a tecnologia como pano de fundo, sendo, sim, acima de tudo sobre pessoas, suas escolhas e sua moralidade. O criador da série levou isso ao extremo numa temporada que irá desagradar quem pensa que isto é sobre cool gadgets ou ideias tecnológicas. Isto é sobre nós, humanos, e Booker surpreende ao alargar as fronteiras do que é um episódio de BM. Não resulta sempre, mas é sempre audaz e criativo. Como fã de terror, obrigado.

Joan is Awful

Neste episódio, Joan descobre ao chegar a casa que toda a sua vida – e falo dos eventos do próprio dia – viraram uma série televisiva. Se inicialmente ela não sabe porque tal está acontecer e porque Salma Hayek está a protagonizar uma série sobre si, rapidamente se apercebe que ela própria tudo aceitou quando subscreveu à plataforma de streaming de Strawberry. Afinal, a própria Salma Hayek também fez um acordo similar e nem é a atriz que está a atuar… 

É um episódio bastante ambicioso e incrivelmente relevante para o contexto atual. Considerando os avanços da inteligência artificial e as reivindicações dos guionistas em greve, é até surpreendente como a Netflix permitiu que isto fosse para a frente, mas foi. A primeira metade do episódio é bastante interessante, desperta-nos curiosidade e produz boas cenas. No entanto, o episódio é conduzido de forma demasiado leve e humorística para o tema abordado, tendo dificuldades em equilibrar o tom. Assim sendo, torna-se cansativo quando chegamos às suas rocambolescas conclusões. Ainda assim, um excelente conceito, a precisar de uma melhor execução.

Loch Henry

Documentários de true crime têm estado muito em voga nos últimos anos e a própria Netflix tem sido uma das principais impulsionadoras. Nem sempre trazem grandes novidades e mexer no passado acaba por ser, por vezes, um drama descnessário e uma maior dor para as famílias das vitimas. Mas, por vezes, são também importantes como elementos de consciencialização, trazendo para ribalta importantes fatos ou até acrescentando novas informações que podem ajudar a desvendar mistérios do passado.

Este episódio tem valores de produção bastante altos. As imagens do passado em formato documental parecem bastante realistas e as atuações estão a um nível elevado, conseguindo-nos prender ao ecrã, mesmo que conte a história sem pressas, ao seu ritmo. A trama é construída de forma inteligente e, inicialmente, até podemos pensar que temas como o racismo ou a discriminação irão ser o foco, mas isso não é o que acontece. Há críticas sociais à forma como vidas reais são vistas como content e entertenimento e Myha’la Herrold tem uma grande interpretação a comandar as cenas. O melhor é que o final ainda mais impactante e chocante é, fazendo deste um dos melhores episódios deste grupo.

Beyond the Sea

Num passado alternativo, ambientado em 1969, os astronautas Cliff e David embarcaram numa missão espacial com duração de seis anos. A sua presença na nave é apenas precisa por breves momentos pontuais, então a sua consciência passa a maioria do seu tempo em réplicas dos seus corpos na Terra com as suas famílias. Numa dessas viagens, a réplica de um deles é destruída bem como toda a sua família real. Receando que isto destrua a missão e ponha em causa o futuro dos dois, o outro astronauta propõe à vítima que passe algum tempo na sua réplica na Terra.

Outro dos grandes episódios desta temporada. É o mais “tradicionalmente Black Mirror” e resulta muito bem, seja pelos dilemas morais que nos coloca, pela sua construção inteligente ou pelas excelentes atuações de atores consagrados. Nenhuma outra série nos faz torcer por alguém sabendo que ele está a fazer o que é errado para depois…ainda nos atirar um estaladão na cara. Um final aterrador, à Black Mirror. 

Mazey Day

Neste episódio uma atriz começa a ser perseguida e a esconder-se de paparazzi depois de um caso de atropelamento e fuga. Ao mesmo tempo, uma paparazzi que se tinha afastado desse mundo depois de ver de perto as suas consequências para as vidas das pessoas, vê-se forçada a retomar a atividade por necessidade financeira.

É um episódio que reinventa o conceito de Black Mirror e demora um pouco demais a dar as suas cartas, mas que se pensarmos um pouco faz todo o sentido. É essencialmente acerca de escolhas de pessoas e sua moralidade e a tecnologia até ajuda a que tudo dê errado – sim, um dispositivo GPS é tecnologia. Toma caminhos inesperados de terror fantasioso e isso irá frustrar muita gente, mas alarga as fronteiras da série, mantendo-se fiel às suas temáticas. Shot final de luxo e uma crítica social pesada, quer acerca de predadores e presas, quer acerca do mundo do entertenimento e a sua pouca consideração por vidas humanas. 

Demon 79

Nida vive numa sociedade onde é diferente dos demais e onde tem que “comer e calar”. Vai sofrendo discriminação a todos os momentos de um dia, mas vai aguentando, sem nunca levantar a voz, pois não tem alternativa. Tudo muda quando é visitada por um demónio tagarela que lhe diz que ela tem que matar três pessoas nos próximos três dias. Caso não o faça, o mundo acabará.

É demasiado longo para a história que tem para contar, mas as boas interpretações nunca deixam isto cair. Socialmente é também muito relevante com as críticas que faz a políticos que tanto na moda estão na atualidade e que apenas se querem aproveitar das mentes mais maleáveis da sociedade. Conceito já visto antes – ainda este ano em Knock at the Cabin – mas bastante bem executado, com momentos violentos e chocantes e uma memorável cena final. 

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