Bob Marley: One Love…for Money

Bob Marley. Uma figura incontornável e virtualmente consensual pelo mundo fora. Não há quem consiga ficar quieto ou calado quando ouve os seus maiores sucessos e a sua curta vida foi tão marcante que, 43 anos após a sua morte, o género musical “reggae” se continua a confundir com o próprio, sendo não apenas o nome maior, como o único do género que conseguiu perfurar no panteão dos imortais da música. Mas Robert Nesta Marley não foi apenas isso. Foi também um símbolo da paz, um simbolo da reconciliação de um povo que ultrapassou todas as barreiras geográficas para passar a ser visto como um verdadeiro herói revolucionário por todos os cantos do globo. Que fácil que seria fazer um bom filme disto, certo?

Por algum motivo pouco explicável, a verdade é que poucas foram as coisas que correram bem com este Bob Marley: One Love. Ainda assim, há uma que inegavelmente correu bem: a escolha do elenco. Kingsley Ben-Adir é um excelente ator com provas dadas e aqui abraça uma incrível transformação para ser Bob. Desde os seus gestos, a forma pausada com que entoa as suas palavras ou o forte sotaque jamaicano, Ben-Adir perde-se na personagem e percebe-se que queria que isto fosse muito mais. Também Lashana Lynch é uma bela escolha para Rita Marley, proporcionando alguns dos momentos emocionalmente mais fortes do filme. Infelizmente, praticamente tudo o resto é mau ou, no melhor dos casos, completamente banal e esquecível. 

À vista salta, claro, o paupérrimo guião. Não há ponta por onde se lhe pegue. Ora quer-nos mostrar o Bob Marley mais revolucionário, nunca indo longe o suficiente. Ora quer-nos mostrar o Bob Marley músico, mas pouco mais nos mostra do que uma génerica sessão de estúdio. Ora quer-nos mostrar o Bob Marley introspetivo, mas fica por aí não mais de cinco ou seis minutos. Ao tentar tocar em tanta coisa e dando ainda especial destaque a acontecimentos que talvez não merecessem mais do que uma referência – como a traição de um dos seus elementos do staff -, o filme acaba por ficar aquém em todas as facetas, além de nunca conseguir apesentar um bom sentido de continuidade. Tudo parece solto, tudo parece atirado ali ao pontapé. Porque sim, porque tem que estar. 

Alinhando perfeitamente com o guião está a desastrosa edição do filme. Seja através de cenas que se estendem sem qualquer sentido ou outras cortadas de forma abruta quando se espera que se subam os níveis de tensão e de engajamento, há muito pouco bem feito neste requisito, parecendo mesmo um trabalho feito à pressão para cumprir um qualquer prazo inadequado. A obra cansa. Uma obra de Bob Marley nunca deveria cansar, muito menos quando nem se aproxima das duas horas de duração. As músicas são fantásticas, a personagem das mais carismáticas da história e nós ali estamos…entediados e sem perceber muito bem como a obra falha em nos tocar na alma.

Considerando que Reinaldo Marcus Green fez um trabalho tão bom com King Richard, não posso deixar de me sentir desapontado com o que aqui foi apresentado. É um filme que serve apenas para ganhar uns trocos com os fãs do astro pelo mundo fora. Um filme que nunca procura ser mais do que um genérico e básico produto de consumismo fácil. As belas músicas e a excelente escolha do elenco não servem para disfarçar um guião abismalmente fraco e uma edição que deverá ter sido concluída em meia hora.


Bob Marley: One Love
Bob Marley: One Love

ANO: 2024

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 107 minutos

REALIZAÇÃO: Reinaldo Marcus Green

ELENCO: Kingsley Ben-Adir; Lashana Lynch; James Norton

+INFO: IMDb

Bob Marley: One Love

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