O amor canibal de Bones & All

Um filme de canibais. Um filme romântico. Um drama. Um filme de terror. Um road movie. Um filme que muito nos quer dizer sobre a auto-descoberta, sobre a descoberta mútua e sobre a aceitação da diferença. É preciso coragem para que um estúdio de Hollywood abrace um projeto do género e que o faça com um realizador consagrado e um elenco de luxo. Mas isto é Bones & All, um filme que tem muito pouco de comercial na sua espinha dorsal e que vos pedirá que invistam muito nele para que dele possam retirar uma experiência única.

Irá este filme agradar a fãs do cinema de terror? Depende. Se os vossos gostos forem exclusivamente virados para o terror mais mainstream, acredito que não. Se os vossos gostos forem abrangentes e também abraçarem outros géneros, estando habituados a filmes como Near Dark (de Kateryn Bigelow, em 1988) ou Thirst (Park Chan-wook, em 2009), acredito que darão o vosso tempo por bem empregue. Irá este filme agradar a fãs de romance? Depende. Se esperam apenas cenas fofinhas, clichés e pouco ou nenhum sangue, esqueçam. Se não se importarem com uma premissa que nos mostra de forma clara carne humana e tripas a serem mastigadas de forma aparentemente tão deliciosa, acho que vão gostar disto. E são estas zonas cinzentas que Bones & All cobre. E ainda apenas falamos do género, sem tocarmos nos seus temas.

Para falarmos dos temas, falemos antes da sua premissa. A estrela que comanda este filme é Taylor Russell. Ela encarna a personagem principal, Maren, que um dia se parece passar da cabeça e decide trincar – comer, na verdade – o dedo de uma amiga sua. Quando ela chega a casa percebemos que o pai está em pânico porque ele sabe o que a filha é e os dois põem-se em fuga. Pouco tempo depois o pai deixa-a descobrir a vida por si própria, deixando uma série de informações preciosas sob a forma de uma carta, documentos e uma cassete. Maren não fica quieta. Ninguém fica neste filme que é autenticamente um road movie, com viagens constantes de terra para terra, de Estado para Estado. Nessas viagens Maren encontra mais gente como ela. Um deles é Sully, um velhote que parece apenas excêntrico, mas que talvez seja de evitar. Interpretado por Mark Ryllance, Sully tem uma inesperada e bem-sucedida presença em todo o filme, passando de amigo a ameaça de uma forma tão natural quanto assustadora.

Noutra viagem Maren encontra Lee que é interpretado por Timothée Chalamet. E é entre Maren e Lee que nasce uma bonita história de amor e de descoberta mútua recheada de episódios mais ou menos sangretos, mais ou menos carnais, mais ou menos românticos que irão levar a que os dois tenham que tomar certas decisões e fazer escolhas difíceis. Devem viver à margem da sociedade e abraçar a sua diferença longe de todos? Devem viver inseridos na sociedade apesar das suas diferenças? O que querem para o seu futuro? Muitas das questões que este casal vive são extensíveis a vários casais e pessoas do mundo, mesmo que não falemos de canibais. Todos somos diferentes neste mundo – qual seria o interesse do mundo se fossemos todos iguais – e muitos são os que não aceitam certas diferenças de outros. Como reagir a isso? Aceitar quem nós somos é a base de tudo e é precisamente nessa fase que Maren se encontra.

Tecnicamente Bones & All impressiona em várias áreas. Há o gore, claro. Todo ele irreprensível. Perfeito. Mas há mais. Desde logo salta à vista a fotografia, granulada e cinzenta que retrata bem a ideia que temos da década de 80 – o período temporal em causa. Este tipo de fotografia não impede – antes pelo contrário – que existam cenas deslumbrantes, especialmente quando Luca Guadagnino não se coíbe de abraçar o seu lado mais artístico e reflexivo, seja com a câmara em movimento lento, seja através de excelentes planos estáticos. Sim, porque este é um filme bonito de se ver e de se apreciar e que nos dará tempo para isso através da sua história contada pausadamente para que possamos tirar dele tudo o que há para extrair. Sonoramente, é de elogiar o que Trent Reznor e Atticus Ross fizeram no campo musical, com melodias balanceadas, tal e qual todos os géneros que este filme aborda. Existem momentos de suspense pontuados com música mais pesada, mas é nas cenas mais calmas que melodicamente o filme melhor trabalha, tocando-nos no coração e trazendo ainda mais chama àquela jovem paixão que resulta e que tanto nos faz torcer por este peculiar casal.

Bones & All não é um filme fácil e muito menos perfeito. Confesso que para um filme classificado para maiores de 18 anos gostaria de uma abordagem ainda mais extrema – como Park Chan-wook fez em Thirst – mas sei que isto é Hollywood e ter chegado onde chegou já é chocante o suficiente. Considero também que a história tinha espaço para expandir mais do que o faz, mantendo-se sempre muito contida apesar das várias viagens das personagens, o que não sei se é uma limitação do próprio livro em que se baseia (autoria de Camille DeAngelis). Queria também ter passado um pouco mais tempo com algumas das personagens secundárias. No entanto, tudo isso é facilmente desculpável quando vemos a química que Russell – brilhante interpretação – e Chalamet têm e o que o filme nos quer dizer. Acredito que uma segunda visualização, sabendo antecipadamente qual é o destino final, permitirá apreciar ainda mais o que é posto em prática.

Longe de ser um filme convencional, este Bones & All apresenta terror e romance em doses semelhantes. Tem paixão e gore em igual medida. Exigindo paciência e compenetração, a arriscada mistura de géneros leva-nos numa viagem de auto-descoberta e aceitação que ficará nas nossas mentes por muito tempo. O fantástico elenco morde muito e fá-lo de uma forma bela e crua.


Bones & All
Ossos e Tudo

ANO: 2022

PAÍS: EUA; Itália

DURAÇÃO: 131 minutos

REALIZAÇÃO: Luca Guadagnino

ELENCO: Taylor Russell; Timothée Chalamet; Mark Rylance; Michael Stuhlbarg; André Holland; Chloë Sevigny

+INFO: IMDb

Bones & All

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