Boston Strangler (ou o estrangulamento interpretativo de Keira Knightley)

Isto é uma tentativa propagandista directa e subversiva de carregar uma agenda de empoderamento da vulva, mascarada de The Zodiac.

É engraçado que até num filme, com realização e escrita de Matt Ruskin (que, até ver, é homem) que visa o enaltecimento da protagonista que representa a jornalista Loretta McLaughlin, tenham copiado, e mal, um dos, senão o melhor filme com a temática “serial killer”.

Loretta, uma mulher de carreira, família constituída e relação saudável entre todos, é jornalista. Como qualquer profissional, está descontente e ambiciona por mais.

Como qualquer ser humano com ambições, procura persegui-las e desafia quem a tenta travar, com trabalho, resolução de problemas e ultrapassagem de barreiras percepcionadas como inexpugnáveis.

E com isto, começa a aparecer a dissonância cognitiva relativizada como vitimismo de circunstâncias, tais como as hormonais, biológicas, sociais e contextuais aos tempos, aparentemente.

Loretta não quer ser relegada a uma “jornalisteca” de life-style, mas tudo aponta que apenas não é proposta a voos mais altos por ser novata. Eu trabalho. Sou profissional de alguma coisa. Já fui profissional de outras. Mas antes de me considerar especialista ou proficiente na minha profissão, era um mero assalariado que, ou me resignava ao meu status de trabalhar para auferir salário e pagar contas para subsistir, ou me atrevia a mais, para mais, por mais.

Isto é exposto nos primeiros 5 minutos de filme. Loretta esfalfa-se para sair da categoria reservada às jornalistas daquele tempo (MIL NOVECENTOS E SESSENTA E DOIS), fixando artigos que propõe ao chefe de redacção para perseguir. Artigos mais associados a criminalidade ou governo. O chefe prontamente lhe diz “tenho seis homens para essas tarefas já destacados!”.

Esta fala pode ser apenas expositiva para alguns, mas com o desenvolvimento do enredo, o filme despe-se de demonstrativo e reflexivo para propagandista e dogmático da revolução do óvulo e subjugação dos gónadas opressores.

Loretta depara-se com mais uma notícia de uma mulher assassinada no seu apartamento. Releva-a ao seu amontoado de artigos recortados e aí começa a notar um padrão, uma repetição.

Nisto, enquanto Keira Knightley, como Loretta, mostra a sua representação emotiva de face que até pede por vias de facto mais contundentes, surge a sua colega-musa Jean Cole (interpretada por Carrie Coon), que é da confiança do chefe de redação para casos mais bicudos de explorar, investigar e escrever jornalisticamente.

Ora aqui devia ser premente para mim que afinal a melhor pessoa para a tarefa é destacada para a tarefa. Devia, mas não é.

Entretanto, a intrépida-latente Loretta vai visitar a mãe e é casualmente informada de que uma vizinha da senhora foi assassinada e que este artigo saiu no jornal onde Loretta trabalha. Não sei se é o realizador (que até ver é homem) está a tentar demonstrar a verdura da protagonista ou se foi má exposição.

Ao confrontar o chefe de redação com esta descoberta, casada com as anteriores que já tinha recortado no seu projecto pessoal de EVT, Jack Maclaine (Chris Cooper) diz-lhe directamente que não vai coloca-la a cobrir um caso de homicídio por falta de experiência. Loretta responde-lhe, justamente com a questão que é ovo-ou-galinha conveniente de tudo o que é recrutador de talentos do Linkedin: “como é que vou adquirir experiência se não tenho oportunidade de começar?”. E, para meu espanto, dado o tom do filme, o argumento funcionou. Lembrei-me imediatamente de Jordan Peterson que disse que mulheres no mundo laboral não têm melhor remuneração e cargos porque não sabem negociar por isso. Aqui, Loretta, em MIL NOVECENTOS E SESSENTA E DOIS, negociou afincadamente e, pasme-se, Jack intercedeu.

Toda a primeira hora disto é pejada de propaganda de como Loretta não consegue o que precisa ou não é vista com a mesma credibilidade que os seus pares por ser tipa, mas não. Jornalismo de investigação de sucesso acontece com relações de bastidores com base na confiança e integridade do investigador e de quem lide com ele nos círculos que pretende investigar. Loretta bate muitas vezes com o nariz na porta porque simplesmente ninguém sabe quem ela é e não é razoável que alguém que, por exemplo na polícia (minuto 10) lhe vomite a informação tal e qual ela necessita apenas porque sim. Não é assim que funciona no mundo e na vida. Há uma estranha e injusta ordem e hierarquia das coisas e pessoas nesta bola gigante molhada giratória com demasiadas pessoas e coisas.

Tal como Loretta e Jean se envolveram de corpo e alma na malha de violência e morte, também eu dei por mim a encarnar metaforicamente o Estrangulador que facilmente agrediria a sugestiva face de Keira. Mas algo me trouxe à realidade do filme: o fim da sua primeira hora.

Aqui já muito se propagandeou, já muito se subentendeu, já muita falta de discernimento foi discorrida fantasiada de vitimização por abundar mais estrogénio e progesterona do que testosterona na carcaça híbrida de heroína e escrava da sociedade Loretta McLaughlin, já muito ataque narrativo e expositivo aconteceu a homens e ser homem.

Aqui já se fala em Albert DeSalvo, o bode-expiatório que arca com tudo o que é assassinatos da autoria do Estrangulador de Boston.

Aqui, quando a trama se ejecta do tampão altamente embebido de revolta e militância e se permite a receber vitamina D do astro deus Sol e apreciar as belas coisas que a vida tem para oferecer, fora da bolha dos rótulos da opressão, a história finalmente engrena e avança para o que de muito mais agradável (por contraste à “agenda”) este filme podia tratar-se: um serial-killer especializado em violar, espancar, matar e atar laços de cetim a mulheres.

A nossa heroína acha que DeSalvo é, sem sombra de dúvida, o Estrangulador de Boston. Após 3 anos de homicídios por resolver, milhares de pistas depois de a história se tornar pública, pela vontade imensa desta heroína do planeta Pulitzer, a pressão de resultados na investigação por uma débil e tacanha Polícia de Boston e a vontade generalizada de que este assunto termine levam a este bastante conveniente desfecho.

Mas o filme consegue ainda assim ser um pouco mais interessante explora esse caminho. Explica e expõe porque e como é que se chegou a essa conclusão. E é bem feito. Peca por escasso e tardio. Nesta altura, até eu pesquisava na Amazon por preços de bobines de seda para fazer laços.

Mas o apogeu de repulsa que parecia não conseguir mais sentir, aconteceu. Começa no diálogo entre Loretta e Larry Nassar onde este basicamente entrega a seguinte motivação para os estrangulamentos de Boston: “Há muitos Albert DeSalvos por aí. E o vosso mundinho seguro é apenas uma ilusão. Homens matam Mulheres. Não começou com Albert. E também não termina com ele”. Close-up da cara de Keira… Duas sequências a seguir, Keira McLaughlin ignora ir para casa onde o seu marido, previamente atacado, diminuído e desvalorizado aguarda serenamente pela sua chegada. Esta ruma a um bar onde se encontra com a sua musa da emancipação por infelicidade conjugal e celebram as duas esta coisa que conseguiram com claro esgar de conquista mas semblante de baque de realidade.

Texto final a indicar o destino das mulheres reais que foram representadas no filme.

Escusado será dizer que Loretta se divorciou, casou mais tarde mas o segundo morreu e ela então também morreu sozinha, mas com carreira.

O meu repto a quem ler este texto e veja este filme: desafio-vos a contrapor esta minha posição de que o filme atacou masculinidade ou pelo menos induziu a provocação para esses seres malfadados portadores de testículo. Entremos num debate onde terei todo o gosto e tempo para comprovar onde e como é que isso foi feito inúmeras vezes, subversiva e directamente, e até, por minha interpretação encolerecida.

PS: esta senhora nem se deu ao trabalho de contrair um sotaque de Boston. E é por isso que Alessandro Nivola é de caras francamente superior a ela em tudo neste filme.


Boston Strangler
Estrangulador de Boston

ANO: 2023

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 112 min.

REALIZAÇÃO: Matt Ruskin

ELENCO: Keira Knightley, Carrie Coon, Chris Cooper

+INFO: IMDb

Boston Strangler

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