Em algum lugar do multiverso cinematográfico há um ótimo Bottoms. O que assisti, é péssimo!

Eu não entendo o que houve. Talvez eu tenha assistido a alguma versão alternativa do filme que todos estão adorando. Uma variante em meio ao multiverso cinematográfico. Um reflexo invertido de uma dimensão paralela. Pois não é possível que Bottoms esteja agradando tanto. Não o Bottoms que eu vi.

Dizem que o filme é engraçado, que faz rir sem esforço, naturalmente. O que eu assisti, não. Se ri com alguma piada durante toda sua duração, foi muito. Sempre que Bottoms tentava me divertir, sentia que suas piadas haviam sido escritas por uma dupla improvável de um jovem cuja referência de comédia são youtubers escandalosos e chiliquentos, e um quarentão desesperado para parecer “descolado” e desconstruído para a atual juventude.

O argumento do Bottoms alternativo, 2.0, espelhado, ainda não decidi como chamá-lo, é uma bagunça. O filme é povoado por personagens idiotas e caricatas, que passam o tempo todo falando estupidezes, fazendo caretas, entre outros exageros, como crianças bestas desesperadas para fazer uma platéia de idosos senis gargalhar. Entretanto, há no elenco duas personagens críveis, abordadas com maior realismo, que apresentam mais profundidade e dramaticidade que quaisquer outras. Tais personagens são interessantes, porém destoam completamente de tudo o que Bottoms apresenta. Talvez sejam um resquício da tal versão fantástica que tragicamente perdi de conferir.

O Bottoms que assisti também tenta discutir importantes pautas do universo feminino. E só tenta mesmo. Palavras chave são proferidas esporadicamente apenas para cumprir tabela, sem nunca serem realmente integradas ao enredo do filme. É como um estudante do fundamental que apresenta tópicos em uma apresentação, e espera que o professor acredite que ele está por dentro de tudo aquilo. O resultado, é claro, é o contrário: a falta de esforço apenas expõe sua superficialidade.

Mas não quero fechar este texto apenas com negatividade. Devo ser justo, e destacar o bom trabalho prestado pelo elenco do longa. Os atores entregam, de um modo geral, boas atuações, destacando-se dentre eles as atrizes Rachel Sennott, que vive PJ, Ayo Edebiri, que vive Josie, e Ruby Cruz, que vive Hazel. O trio tem carisma de sobra, demonstrando tremendo controle de suas personagens, e domínio de cena. Sempre que entram em ação, todas as três fazem valer os holofotes que o filme joga sobre elas. E é isso, aqui acaba o que tenho a elogiar.

Como disse, a situação é surreal. Não é possível, deve mesmo haver um Bottoms muito bom por aí, diferente da versão terrível que assisti. Se não isso, há algo de muito errado comigo, ou com todo o resto do público do filme. Tendo em vista a assimetria da situação, prefiro acreditar na alternativa multiversal. Está na moda.


Bottoms
Bottoms

ANO: 2023

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 1h 31min

REALIZAÇÃO: Emma Seligman

ELENCO: Rachel Sennott, Ayo Edebiri, Ruby Cruz

+INFO: IMDb

Bottoms

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