Carter (ou a boa-vontade na confusão visual e storytelling)

Há muito boas ideias e muito voluntarismo, mas as ambições foram demasiadas para tamanho barulho visual e narrativo sem fio condutor e com uma tremenda pressa de edição em querer mostrar tudo e rapidamente.

Este filme celebra, aparentemente, o encontro inebriado, intoxicado e eufórico de várias coisas: a coreografia de acção asiática que se doutrina em filmar tudo perceptivelmente em sequências semi-complexas a complexas com princípio, meio e fim; o surrealismo ultra-exagerado da interpretação de acção indiana com gritante e abusivo recurso a efeitos especiais digitais e um enredo que tenta ser multidimensional, que falha no excesso, na falta de estrutura ou no foco necessário a contar uma história.

O protagonista não tem memória de quem é mas tem memória do que sabe fazer: parece que é um agente especial que é de uma equipa mas se infiltrou noutra e agora representa as duas, conforme vai desenvolvendo lembranças ou é manipulado por motivações dessas tais equipas.

Nesta Coreia, há um vírus que ameaça a Humanidade, mas que pode e tem de ser contido no Norte, mas que é ou foi manipulado a ser libertado pelo Sul e agora a cura tem de ser levada do Sul para o Norte onde se estima que o Norte o tenha lançado para testar como arma.

As duas equipas dividem-se entre patriotas e influência externa para gerar dissidência, ou assim se pensa. Há uma tese de que um núcleo do regime do Norte criou e libertou o vírus para executar um golpe de estado. Há outra tese de que esse golpe é cortina de fumo para o domínio do Sul que é apoiado pelos EUA e seus cães-de-fila dos serviços secretos.

Há um guisado enfiado num ensopado, envolvidos numa açorda que é recheio de um frango-do-campo enfiado num perú a assar numa furna dos Açores, que descobrimos ser um forno de uma padaria abandonada que revela o pergaminho da verdade sobre Aljubarrota: a padeira nunca existiu.

Tive de ver este filme em dois turnos. Leva duas horas e pouco mais de rodagem, mas tal foi o cansaço sensorial que me exerceu na primeira hora, que tive mesmo de limpar a testa, colocar um pano húmido nos olhos e ouvir sons de baleias para descomprimir e atacar a segunda parte.

O detalhe muito mal disfarçado de “filmar tudo em one-shot sequence” não teve como passar despercebido. Esta drag-queen espampanante que irrompeu pela biblioteca adentro para sussurrar este thriller de espionagem pré-apocalítica militar de crítica social ao panorama do governo daquele pedaço de mundo não conseguiu ser mais discreta que as suas unhas de acrílico azul-eléctrico com pentáculos rosa-choque e a roçar no chão de tão compridas, com guizos do Noddy que tilintavam na frequência de badalos de boi Black Angus.

Estou cansado com o que vi. Não consegui envolver-me por muito pouco que o filme me poderia estar a oferecer e quase a conseguir a espaços, por algo que não tenho memória de ter visto noutro filme mais excêntricozinho: interrupções de tensão ao estilo jump-scare. Quando certas sequências estariam pouco mais de a meio de construir tensão ou foco num tema específico, lá aparecia uma bala, uma explosão, um grito, um pontapé ou alguma personagem com alguma fala a quebrar aquele início de algo promissor por de entre esta enorme bola colorida de cocó.

Mais do que cansado, estou frustrado com a muito má representação de um modo geral. Tudo bem que isto é um filme de acção. Tudo bem que parece ter sido feito para consumidores de TikTok mas caramba, há demasiadas personagens com demasiadas oportunidades para falar quando não deviam, como não deviam e que não deviam. Se dar oportunidade a figurantes de ter falas é inclusão, então parabéns. Este cast deve ser equivalente ao absurdo número de presentes na maior feijoada da Europa celebrada na ponte Vasco da Gama.

Em suma: parece barato, soou barato, tentou esticar-se ao máximo para cobrir demasiadas frentes, mostrou vontade e paixão e a Camilla Belle continua lindíssima e péssima actriz.


Carter
Carter

ANO: 2022

PAÍS: Coreia do Sul

DURAÇÃO: 132 min.

REALIZAÇÃO: Byung-gil Jung

ELENCO: Joo Won, Kim Bo-Min, Camilla Belle, Mike Colter

+INFO: IMDb

Carter

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