Senhoras e senhores, com vocês: o grande, brilhante, e exótico, Cassandro!

Biografias são complicadas. É comum se deparar com filmes do gênero que, tamanha devoção devem às pessoas que retratam em seu enredo, romantizam demais seus protagonistas, proporcionando ao público uma visão rasa, até pouco relacionável, das figuras que contemplam. Cassandro não é assim. 

Gael García Bernal vive Saúl, um lutador amador que ascendeu ao estrelato na pele do “exótico” Cassandro. Saúl é pobre, gay, filho de uma mãe solteira, e de um pai que o evita há anos. A sua jornada não é fácil, seja dentro ou fora dos ringues. No âmbito pessoal, o lutador cuida da psicológica e fisicamente frágil mãe, vive paixões às escondidas, sempre fadadas ao fracasso, entre mais mil diversidades garantidas pela vida às margens da sociedade. Profissionalmente, Saúl, ou melhor, Cassandro encara toda a resistência de um meio que não quer admiti-lo como um grande lutador e showman. Travestido de corpo e alma em apresentações ousadas, o lutador confronta tudo e a todos, de públicos ofensivos a rivais que se negam a perder uma luta para um travesti, sempre com a cabeça erguida, um sorriso no rosto, e poses dignas de uma diva.

Saúl é um homem sonhador, que não se contenta com pouco. Isto nos ajuda a engajar com sua luta, nos faz torcer por ele. Mas Saúl também é falho, se entrega a vícios e cai em tentações imorais. É aqui, então, que nos relacionamos com ele, nos aproximando dessa personagem que é tão humana quanto qualquer um de nós. Saúl só é posto em um pedestal quando está no ringue e é Cassandro, pois lá é que ele deve brilhar e levar sua glória a todos que o puderem ver. Quando fora de combate, está a nosso nível. Humilde, com os pés no chão, mas sem nunca deixar de sonhar alto.

Cassandro, e agora me refiro ao filme, é ótimo. Seu enredo é comovente e empolgante, suas personagens envolventes, e seu ritmo nos carrega com facilidade por suas quase duas horas de grande equilíbrio entre o drama, humor e ação. Entretanto, o longa não está livre de problemas, tendo dois fatores me incomodado enquanto assistia.

O primeiro é a construção da relação de amizade entre Saúl e sua treinadora Sabrina, vivida por Roberta Colindrez. Os dois vivem um relacionamento bonito de companheirismo, mas o caminho traçado até esta etapa de sua relação não é explorado. Em um momento, Saúl está conhecendo Sabrina e a contratando. No outro, os dois já estão íntimos. Senti falta de uma gradual e mais natural evolução emocional entre as personagens, e isso me afastou um pouco do que havia entre ambos.

O segundo problema é gritante. Cassandro se passa no México, mas todos lá são bilíngues. Espanhol e inglês são misturados o tempo todo, sem nenhuma desculpa plausível, a não ser a de que o filme é uma coprodução com os Estados Unidos, e os americanos não assistiriam a um filme com 100% dos diálogos falados em outro idioma. É estúpido, extremamente irritante. Uma decisão besta, que serve apenas para mimar aqueles que não se esforçam para pôr um pé para fora de sua zona de conforto, e que acaba ofuscando parte do forte brilho que Cassandro emana.

Mas o filme tem brilho de sobra, e por isso encanta. Gael García Bernal está incrível, seu Saúl é autêntico e sensível, e seu Cassandro é apaixonante, enérgico e grande, é claro. Menos não aceitaria, nem poderia ser. Cassandro, a personagem, é uma figura enorme, seja em importância e visibilidade, ou em carisma. E Cassandro, o filme, pode não ser perfeito, mas é digno de Saúl, seu lutador exótico, e sua escalada para a fama.

Bravo, Cassandro. Bravo!


Cassandro
Cassandro

ANO: 2023

PAÍS: México, EUA

DURAÇÃO: 1h 47min

REALIZAÇÃO: Wes Anderson

ELENCO: Gael García Bernal, Roberta Colindrez, Perla De La Rosa

+INFO: IMDb

Cassandro

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *