Causeway é lento como a recuperação de um trauma

Lidar com um trauma não é fácil. Assimilação, aceitação, recuperação e adequação são parte de um processo lento, doloroso e desgastante. Uma experiência traumática exige muito de uma pessoa. Exige força, exige perseverança, mas, acima de tudo, exige muita paciência.

Causeway (Passagem) fala sobre traumas. Fala sobre pessoas que passaram pelo inferno, e não saíram de lá ilesas. Pessoas que vivem diferentes momentos de suas dores: uma já bem estabelecida, a outra dando seus primeiros passos em rumo a um recomeço. Ambas marcadas para sempre com as marcas das tragédias que roubaram delas parte de si. Física e/ou psicologicamente.

Por isso, Causeway exige paciência de seu público. O filme sabe o que suas personagens estão passando, entende que elas precisam de tempo para vencer as dificuldades que enfrentam, e decide respeitar isso.

Causeway é lento, e melancolicamente contemplativo. A angústia é muito bem transmitida através dos planos longos e discretos, e a etérea banda sonora traz forma à atmosfera carregada de tristeza e pessimismo. O trabalho musical do filme se destaca como o melhor e mais lindo elemento da produção. Os sintetizadores transmitem informações repletas de ruídos de beleza agridoce, que encantam pela sua bela sonoridade, mas afligem com seu tom deprimente.

Entretanto, o silêncio tem um papel importantíssimo aqui também. É ele o principal agente na construção da constante sensação de solidão que o filme apresenta. Mesmo estando próxima da mãe, ou da cuidadora que a acompanha no início de seu tratamento, a personagem Lynsey (Jennifer Lawrence) agoniza com uma batalha pessoal, tão individual, que a afasta de qualquer um ao seu redor. A quietude de algumas cenas de Causeway é ensurdecedora, pois o sofrimento solitário de Lynsey grita através da excelente atuação de sua intérprete, e o uso minimalista de trabalho sonoro evidencia muito isso. 

Há, todavia, uma pessoa que traz conforto à Lynsey: James (Brian Tyree Henry). Também vítima de um evento traumático, James cria uma relação de amizade muito forte com Lynsey. A dinâmica entre as personagens funciona muito bem, e isso é devido ao ótimo argumento que desenvolve as duas de modo que uma complementa o que tanto falta na outra… ou é isso que é deixado a entender a princípio. Mas é claro que essa dinâmica não funcionaria se não fosse o excelente trabalho da dupla de atores de maior destaque. Apesar de conseguir enxergar a atuação de Lawrence, que parece se esforçar além do necessário para entregar as emoções que a protagonista pede, não é preciso palavras para que ela diga em alto e bom tom toda a dor que Lynsey sente. Podemos dizer quase o mesmo de Tyree, mas ele se destaca aqui pois entrega um trabalho sensível e emocional que exala naturalidade. James é acolhedor e carente, e duvido que qualquer um que assista a Causeway não se encante com ele.

Existe outra relação de Lynsey tão, ou mais potente que a de James em Causeway. Uma relação tão significativa para a personagem, que desafia e remodela até mesmo aspectos narrativos e sensoriais do próprio filme. Prefiro não revelar que tipo de relação é essa, ou com quem ela se dá, pois, por mais que não seja exatamente um spoiler ou qualquer coisa que implique num menor aproveitamento da experiência, ela tem grande impacto emocional e narrativo na trama e no desenvolvimento da personagem Lynsey. O silêncio, até então usado como signo para o desamparo e desespero, aqui se ressignifica, e torna-se o elo definitivo de um relacionamento marcado por cumplicidade, carinho e amor incondicionais e inabaláveis. O elemento que tanto oprime Lynsey caracteriza-se, a partir dessa relação, como sinônimo de familiaridade e conforto. É como se, quando privada desse relacionamento que é tão importante pra ela, a quietude perdesse o sentido, e se corrompesse em um inimigo estúpido e degradante.

Causeway é tecnicamente, sensorialmente e textualmente muito bem elaborado e executado. Seu ritmo é lento e provavelmente afastará boa parte do público que decidir vivenciar o filme. Uma pena. Causeway é sensível, emocionante e discretamente arrebatador. Por isso, deveria alcançar o maior público possível, o que, infelizmente, não vejo acontecendo.


Causeway
Passagem

ANO: 2022

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 1h 32min

REALIZAÇÃO: Lila Neugebauer

ELENCO: Jennifer Lawrence, Brian Tyree Henry, Linda Emond

+INFO: IMDb

Causeway

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