Choose or Die…ou não escolham nada

Muitas vezes é a Netflix acusada – até por colegas meus – de apostar em muitas produções com pouca qualidade. Eu não concordo a 100% com essa afirmação. A Netflix tem uma clara estratégia que passa por aliar muita quantidade com qualidade. Claro que isto nem sempre resulta e quem não está atento ao que é suposto ser mais ou menos elevatório, acaba por ser perder no algoritmo da plataforma. Quer isto dizer que este Choose or Die é bom? Não. Quer dizer que se enquadra na estratégia da marca que lança – muitas vezes apenas através da distribuição e não da produção – muitas obras com o seu selo apenas para atacar determinados segmentos.

Choose or Die parece na essência ser um filme para jovens, mas quando nos apercebemos da temática e das suas referências rapidamente percebemos que pretende muito mais jogar com a nostalgia e piscar o olho a fãs adultos do terror. Claro que lá está Asa Butterfield – a estrela de Sex Education – que pretende também chamar os fãs mais jovens. Mas será que os mais jovens – principalmente o público mais casual – saberão quem é Robert Englund? Claro que não. Essa é apenas uma das muitas referências a A Nightmare on Elm Street, com vários posters espalhados no quarto de uma das personagens ou no próprio conceito do filme que joga com a dualidade realidade/sonhos (aqui, o virtual) para nos fazer entender que se morrermos no jogo, morremos na vida real.

Há momentos em que o conceito resulta. Afinal, não há aqui nada de especialmente novo e muitos até poder-se-ão lembrar da febre asiática que existiu de terror à lá Ringu e todas as suas cópias, com vídeos ou jogos a serem mais reais do que se poderia pensar. No entanto, aqui parece existir um travão a fundo sempre que as coisas começam a correr bem. Por exemplo, há uma cena inicial verdadeiramente bem concebida e traumatizante, onde vemos uma das personagens a mastigar vidro (ok, não é a primeira vez que vemos algo similar, mas é super eficaz) sendo até difícil desviarmos o olhar. Há uma cena em que temos a protagonista principal a tentar ajudar a sua mãe que está num local diferente e vemos tudo como se de um jogo se tratasse. Muito eficaz também. O problema é a cola que o filme necessita entre essas boas cenas e o que faz com elas.

Há um subplot um pouco desnecessário relativo às condições em que Kayla vive – e que termina de um modo totalmente embaraçoso para quem assiste – mas no geral é Kayla quem nos mantém o interesse no filme, com uma surpreendente e bastante forte interpretação de Iola Evans. Sim, a mesma já tinha participado em algumas séries de elevado valor, mas a sua estreia no cinema permite prever um futuro auspicioso para a mesma, pela forma como comanda o filme, sendo o melhor que Choose or Die tem para mostrar.

Asa Butterfield cumpre com o seu papel, mas parece que estamos a ver exatamente a mesma personagem de Sex Education mas com menos humor. Robert Englund é um isco enorme, uma vez que ele praticamente nem é visto. E quanto à realização, Toby Meakins mostra não ter ainda unhas para esta guitarra – também há a escrita dele próprio, Simon Allen e Matthew Wilkinson para culpar…e de que maneira! – mas aqui e ali até faz coisas interessantes, mantendo-nos, pelo menos, atentos até ao final. Isto até chegarmos a um absurdo 3º ato, onde em menos de 30 segundos nos tentam explicar tudo o que há para explicar de uma forma nada convincente, já depois de termos tido o suposto momento mais emocional da obra que…nos dá mais vontade de rir do que de chorar.

De uma forma geral, Choose or Die tem aspetos que merecem ser aplaudidos e algumas boas surpresas. No entanto, parece ter sido escrito às três pancadas e apresenta-nos um terceiro ato absurdo para culminar uma obra que não vinha sendo fantástica mas que, até então, tinha servido como razoável entretenimento.


Choose or Die
Choose or Die

ANO: 2022

PAÍS: Reino Unido

DURAÇÃO: 84 minutos

REALIZAÇÃO: Toby Meakins

ELENCO: Iola Evans; Asa Butterfield; Angela Griffin; Robert Englund

+INFO: IMDb

Choose or Die

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