CODA emociona e é um dos melhores filmes do ano

CODA pode significar muitas coisas, mas neste contexto significa “child of deaf adult” (“criança de adulto surdo”, numa tradução literal), ou seja, alguém que foi criado com um pai ou ambos os pais surdos. É um título feliz por ser simples, direto e com bastante significado. Um pouco como este filme, que mistura drama e comédia e que só não irá penetrar em corações de pedra.

A história fala-nos de Ruby, uma adolescente fora do comum, na fase das maiores decisões da sua vida. Ajudando os pais desde cedo e conciliando isso com as suas atividades escolares, nunca se preocupou muito com o que ela poderia ser, aceitando que o seu maior papel seria o de ajudar a família no que fosse necessário. E como a família parece precisar dela… com os dois pais e o irmão surdos, é ela que serve de intérprete em quase todas as atividades da família de pescadores, o que leva a que a mesma até seja gozada na escola. Um dia, Ruby – mais de forma a seguir uma paixoneta adolescente do que propriamente por acreditar nas suas capacidades – decide inscrever-se no coro da sua escola. Aí percebe que, afinal, até tem talento para a música, o que abrirá portas a novas possibilidades, mas também a vários problemas e decisões complicadas de tomar.

A história não foge muito do típico coming-of-age, onde vemos uma adolescente a ter que tomar importantes decisões, enquanto tenta perceber qual é a sua posição no mundo e o que, de facto, quer. A fórmula apresentada também é a mesma já vista em outros filmes do género, com direito aos habituais clichés e uma certa previsibilidade. No entanto, esse é mesmo o único aspeto onde este filme não se supera. Tudo o que faz? Próximo da perfeição. Pode ser a mesma fórmula de sempre, pode ser algo que já vimos antes e até podemos, facilmente, adivinhar como irá acabar, mas tudo é feito com uma atenção ao detalhe e paixão tao grandes que é impossível não nos sentirmos diferentes depois da sua visualização.

Siân Heder tem uma realização muito segura, com excelentes planos, suportada por uma bela cinematografia, quase sempre com o mar e o jogo de cores naturais como plano de fundo. O filme é, quase na totalidade, passado em três localizações – na escola, na casa da família e no mar – e em todas elas existe uma identidade própria e familiar. Isto é possível devido a um fantástico trabalho de Emilia Jones no papel principal, que dá uma profundade enorme à personagem de Ruby, incorporando as forças e as fraquezas de um típica adolescente em busca do seu sonho, ao mesmo tempo que se sente insegura em relação ao impacto que esse sonho possa vir a ter na relação com a sua família. Faz isto na perfeição tal como o faz com as suas inseguranças, incertezas e misto de sentimentos, sentindo-se entre dois mundos, duas realidades. No campo vocal, a jovem também impressiona, transportando muito sentimento para as suas interpretações musicais sem que caia em exageros típicos deste género de filmes.

CODA é, na verdade, um remake de um filme francês – La Famille Bélier – mas faz algo bem melhor do que o filme francês: todos os atores que fazem parte da família são, realmente, surdos na vida real, o que é um importante e necessário passo para uma maior e mais correta representação no cinema. E toda a familia brilha! O pai é interpretado de forma bastante convincente por Troy Kotsur, proporcionando alguns dos melhores momentos do filme – como, por exemplo, quando conversa com Rudy, na sua carrinha depois de assistir ao concerto da filha numa cena bastante emocional.  Também a mãe – por Marlee Matlin – e o irmão – Ferdia Walsh-Peelo – se apresentam bastante bem, tendo direito aos seus momentos e espaço para brilharem. Outro grande destaque – e surpresa, dado o seu passado na comédia! – foi a interpretação de Eugenio Derbez no papel do professor que procura convencer Ruby a seguir os sonhos, nunca esquecendo a importância da tomada de decisões, a luta pelo que desejamos e as consequências que daí podem advir.

No que concerne à surdez, o filme faz uma excelente trabalho, sem ser forçadamente exploratório, ao demonstrar as dificuldades diárias – em discussões, negociações ou reuniões -, existindo uma cena em particular, no teatro, em que o silêncio vale ouro. É uma das cenas mais poderosas do filme, onde é muito bem demonstrada a importância da comunicação através de diferentes formas e meios. A comunicação, a importância da família e a luta pelos nossos sonhos são as três grandes áreas onde o filme nos pretende passar algo mais do que demonstra em cena e nunca falha nesses aspetos.

Siân Heder criou aqui uma pequena jóia. Ela sabe para onde nos quer levar, sabe que muitas pessoas poderão torcer o nariz a isso, mas fá-lo com tanta perfeição que não deixa ninguém indiferente. CODA quer controlar as nossas emoções e consegue, sendo quase impossível conter as lágrimas. Transmite fortes mensagens e é um dos melhores do ano.


CODA
CODA

ANO: 2021

PAÍS: EUA; França

DURAÇÃO: 111 minutos

REALIZAÇÃO: Sian Heder

ELENCO: Emilia Jones; Marlee Matlin;Troy Kotsur; Eugenio Derbez

+INFO: IMDb

CODA

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *