Coming 2 America: Este Príncipe já brilhou mais

Confesso que quis evitar a nostalgia. Dois dias antes de ver esta muita aguardada sequela, voltei ao clássico de John Landis. Comecei a vê-lo, pensando “não deve ser tão bom como me lembro e será, provavelmente, banal no contexto atual”. Errado. O primeiro filme resulta muito bem, graças à naturalidade cómica de Eddie Murphy e à sua química com Shari Headley, à subtileza de Arsenio Hall e a um excelente trabalho de todos os actores secundários. O cenário de Queens deu um brilho especial e diferente ao filme, que conclui com uma boa lição sobre afirmação, amor e escolhas.

Parti para esta sequela com algumas expectativas. Talvez os alertas de cash grab (ou a procura do dinheiro fácil em cima de um produto reconhecido) lá estivessem. Afinal, passaram-se 33 anos sobre o primeiro filme! No entanto, havia vários sinais animadores: o regresso de (praticamente) todo o cast, um Eddie Murphy totalmente recuperado na sua credibilidade, depois do sucesso de Dolemite Is My Name e…o próprio realizador desse filme a realizar esta sequela! Ao elenco, juntavam-se mais nomes de peso e o filme prometia ter um foco maior em Zamunda, o famoso reino africano, do qual gostávamos de ter visto mais inicialmente.

Comecemos pelas coisas boas, pois é assim que o filme começa: a primeira meia hora está ao nível do primeiro filme. De imediato, apercebemo-nos de várias referências ao filme original, percebemos que Wesley Snipes foi acrescentado ao elenco para se divertir e divertir-nos e vamos reconhecendo as antigas personagens, uma a uma, ficando com aquele brilhozinho nos olhos, por ver como todos mudaram. A juntar a tudo isso, o Príncipe Akeem tem três filhas, que parecem ter a atitude da mãe, adaptada aos tempos atuais e isso vai-se conectar, previsivelmente, com a história. Quando o Príncipe Akeem está na iminência de se tornar rei, conflitos começam a eclodir com o General Izzi (Snipes), que quer o poder. Akeem está preocupado com a sua sucessão, pois, segundo as regras de Zamunda, apenas um homem pode reinar e ele apenas tem filhas. É aí que o Príncipe descobre que deixou um filho bastardo por Nova Iorque no pouco tempo que lá esteve – um filho que ele próprio desconhecia, pois terá sido intoxicado, tendo relações sexuais, contra a sua vontade, com Mary (Leslie Jones). Não, não vou entrar nas questões éticas que isso envolve. Aqui falo-vos do filme.

A história é básica, mas poderia resultar. Afinal, a premissa do 1º filme também não é propriamente elaborada. Aqui, Akeem encontra-se com o seu filho Lavelle (Jermaine Fowler) e rapidamente o convence a juntar-se a ele em Zamunda, seguindo-se um longo processo de treino e teste para que este possa oficialmente ser Príncipe. Esta mistura de Coming to America com Karate Kid poderia dar certo, mas Jermaine Fowler – perdoem-me os seus fãs, mas não foi aqui que me convenceu – não é Eddie Murphy e não tem o carisma, nem o humor suficiente para carregar o filme às costas. Murphy, também, aqui, é uma sombra de si mesmo e poucas são as vezes que o Prícipe Akeem nos faz rir, sendo que Semmi (Arsenio Hall) parece quase perdido no meio de tanta personagem e números de dança (acreditem, são mesmo demasiados).

O filme falha também porque quase só resulta quando nos relembra o original – ou até copia, por inteiro, as suas cenas. Claro que as cenas na barbearia fazem rir qualquer um e as cenas com Izzi também se destacam humoristicamente. Mas era preciso mais “sumo” e aqui a maior culpa tem que ser, mesmo atribuida, a um fraco argumento e a um guião que não foi suficientemente trabalhado, procurando satisfazer todos os públicos, com uma abordagem bastante mais infantil do que a do filme original, parecendo até uma obra da Disney (aliás, esta sequela pode ser vista por maiores de 12 anos, ao contrário do original, que tinha uma classificação etária superior).

As vestimentas de Zamunda estão bastante bem concebidas (com referências a vários países africanos ou…a Black Panther?) e quase todas as adições femininas resultam bastante bem (Leslie Jones faz-nos rir; Nomzamo Batha, como Mirembe, dá o equilibrio necessário a Lavelle; e Kiki Layne brilha como a filha mais velha do Príncipe). No entanto, cai na tentação de copiar o original e tudo parece mais uma paródia do que um filme novo. É pena, pois poderia mesmo ter dado certo.


Coming 2 America
Um Príncipe em Nova Iorque 2

ANO: 2021

PAÍS: USA

DURAÇÃO: 110 minutos

REALIZAÇÃO: Craig Brewer

ELENCO: Eddie Murphy, Arsenio Hall, Shari Headley, Wesley Snipes, Leslie Jones, KiKi Layne

+INFO: IMDb

Coming 2 America

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