A distopia desesperadora de Concrete Utopia

Há tempos não me sentia tão incomodado assistindo a um filme. Concrete Utopia não é brilhante, mas é incrível como, em uma montanha-russa que oscila naturalmente entre o humor e um pesadíssimo drama, consegue envolver e entreter durante toda sua longa duração, apesar de todo o desconforto e revolta causados por sua narrativa.

Concrete Utopia narra a luta pela sobrevivência dos moradores do único prédio que se manteve em pé após um terremoto de escala apocalíptica. O cenário é assustador, as condições são precárias e mortais, e as decisões tomadas pelos sobreviventes para manter sua integridade enquanto indivíduos e/ou comunidade desafiam sua moralidade e sanidade mental. O filme é extremamente estressante, e assim é porque provoca com uma sucessão de crimes e injustiças que estão ali para nos chocar com um misto desconfortável de desprezo e compreensão por tudo o que é discutido, decidido e executado pelas personagens em tela. As barbaridades efetuadas pelos sobreviventes são muitas, mas é inevitável se enxergar, apesar de qualquer julgamento, tomando decisões semelhantes a eles caso estivessemos no seu lugar. Afinal, estamos falando de uma situação extrema, onde cada cuidado é pouco, qualquer recurso é escasso, e as necessidades pessoais devem ser tidas como prioridade total. Mas há um limite para tudo, certo? Há lugar para empatia em um cenário pós-apocalíptico? Existem alternativas que possam superar a frieza de cruéis decisões desesperadas? Não há respostas fáceis em Concrete Utopia, levando em consideração a ideia utópica da existência de respostas por si só.

Há diversas leituras interessantes possíveis de se tirar do filme. De interpretações religiosas, como as menções visuais e simbólicas ao cristianismo, até comentários políticos sobre totalitarismo, xenofobia, refugiados, entre outras complexidades. A luta pela sobrevivência se desdobra facilmente em violência. A violência exalta os mais fortes. Os mais fortes são intoxicados pela sensação de superioridade em relação aos demais. Logo, sobreviver deixa de ser a prioridade, dando lugar à necessidade de manter o status de privilégio e poder a qualquer custo. A violência de Concrete Utopia vai muito além da física, ferindo gravemente a moral, decência e sanidade de ambos personagens e público. 

Entretanto, por mais exaustiva que seja a experiência, Concrete Utopia consegue a proeza de se manter envolvente do início ao fim. O filme nos surpreende constantemente, chocando com absurdos quando achamos que já vimos tudo o que tinha a mostrar: seja quebrando a tensão com um super eficaz e coerente alívio cômico, ou com experimentações ousadas de formato e narrativa, como quando inesperadamente, vemos Concrete Utopia simular algo que fica entre uma propaganda eleitoral e um vídeo institucional. Há criatividade de sobra em Concrete Utopia, o que permite ao filme se renovar sempre que o filme ameaça se tornar cansativo e estressante.

Outro fator que ajuda na imersão e envolvimento com o filme, é o absurdo uso de efeitos visuais. Desde a primeira e super impressionante cena em que vemos o desastre acontecendo, sabemos que Concrete Utopia não está para brincadeira. O visual dos cenários é extremamente realista, e há uma grandiosa sensação de escala que oprime e encanta ao mesmo tempo. O resultado final do filme é impressionante, e exprime uma constante e efetiva sensação de desespero e falta de esperança.

Concrete Utopia é exaustivo, mas nunca deixa de envolver e entreter. Suas personagens são levadas ao limite, e nós, enquanto público, sentimos pelo menos uma parcela deste peso. Todavia, o filme faz um bom uso de humor, equilibrando bem a leveza das risadas com o tremer do roer de dedos e o suar do embrulho entestinal. É uma ótima experiência, desconfortável, mas envolvente e recompensadora.


Concrete Utopia
Concrete Utopia

ANO: 2023

PAÍS: Coreia do Sul

DURAÇÃO: 2h 10min

REALIZAÇÃO: Tae-hwa Eom

ELENCO: Park Seo-joon, Lee Byung-hun, Park Bo-young, Kim Sun-young

+INFO: IMDb

Concrete Utopia

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *