Cruella, o filme onde a vilã de “cruel” ou “vil” só tem o nome

O mundo tem vindo a mudar e a Disney, por vezes a um passo bem mais lento, tem acompanhado essa mudança e Cruella, tal como, por exemplo, Maléfica são a prova desta evolução. Passamos de um sistema meio – ou totalmente – maniqueísta (dualidade entre o bem e o mal) para uma nova realidade que nos faz torcer por quem, aparentemente, não deveríamos – os vilões! Mas calma, utilizei o filme Maléfica apenas como um exemplo, pois Cruella é uma versão um pouco mais bem conseguida desta nova fase da Disney. Emma Stone, Emma Thompson – as maiores estrelas do filme – juntam-se a Joel Fry e Paul Walter neste live-action que segue a vida de uma jovem Cruella De Vil.

Todas as histórias têm lados. Mas como é vamos torcer e/ou até identificar com uma mulher que rapta dálmatas e utiliza a sua pele para fazer casacos? Isto tudo em nome da moda! Eu sei, parece bizarro, mas nesta adaptação os cães têm um papel ainda mais importante do que alguns personagens e garanto-vos que esta nova interação de Cruella com os dálmatas, apesar de trágica em alguns momentos, em nada se compara com a primeira. Craig Gillespie, realizador, – I Tonya – os argumentistas Dana Fox e Tony McNamara bem como as grandiosas Emmas são os grandes culpados por este novo olhar.

Em Cruella é contada a história de Estelle, – Emma Stone – uma personagem que desde sempre teve um génio forte, meio indomável, a frente do seu tempo, cujo sonho era ser designer de moda. Logo no início, somos apresentados a um outro lado de Estelle a quem é dado o nome de Cruella e que, graças a sua mãe, é controlado. Depois de uma série de infortúnios, Estelle, – aqui interpretada pela maravilhosa Tipper Seifert-Cleveland – ainda criança, acaba órfã e conhece Jasper – Joel Fry – e Horace – Paul Walter. Os dois últimos, que cometiam pequenos delitos para sobreviver, aceitam a recém-chegada nas suas vidas. Passam-se alguns anos e vemos uma Estelle, jovem adulta, que continua com o mesmo sonho por realizar até que, depois de vários eventos, surge uma oportunidade onde a protagonista não só conhece como consegue um trabalho ao lado da maior estilista de Londres da época, a Baronesa Von Hellman – Emma Thomson.

A trilha sonora, que casa na perfeição com as composições originais de Nicholas Britell, é apenas um aperitivo perto do trabalho estonteante de Jenny Beavan, a figurinista do filme. Mas tendo em conta que se trata de uma trama onde a moda tem um papel tão fulcral ou até mais importante do que alguns personagens, não poderíamos esperar menos do que aquilo a que somos apresentados. Num estilo meio a O Diabo Veste Prada, vemos um confronto de talentos onde Stone – Estelle/Cruella – e Thompson – Baronesa – dão tudo de si e mais um pouco. As antagonistas que, mais tarde percebemos, serem complementares, despertam o pior lado uma da outra. Ou melhor, Estelle vê-se obrigada a quebrar a promessa que tinha feito a sua mãe e, depois de uma revelação, deixa que Cruella assuma o controlo total; por sua vez, a Baronesa simplesmente potencializa a maldade que já existe nela.

Emma Stone aparece sublime nesta que deverá ser a sua melhor interpretação até agora! O que para mim representou uma chapada sem mão, uma vez que não a conseguia ver neste papel… jamais imaginei que ela pudesse assumir com maestria um papel eternizado por Gleen Close em Os 101 Dálmatas – 1996. Esta nova versão de Stone é refrescante e, mesmo não sendo tão assustadora, – ponto que me deixou de pé atrás – é eletrizante e excêntrica. Dizem que os olhos são o reflexo da alma e neste filme, Emma Stone consegue canalizar isso de tal forma que os seus olhos passam uma tamanha expressividade: uma mistura de genialidade com loucura e sede de vingança, (ver com bastante atenção o minuto 58 onde, na minha opinião, o filme começa), que é impossível não ficar com a imagem dos seus olhos cravados na mente.

Mas neste filme nem tudo é um mar de rosas.

Com uma primeira parte bem mais fraca do que as suas sucessoras, um argumento, por vezes, incapaz de cumprir o seu papel e fornecer ritmo a obra, uma Cruella De Vil que, comparativamente a Baronesa, não faz homenagem ao seu nome, um CGI que fica aquém das expectativas e alguns personagens totalmente desnecessários – o que é que o advogado fazia ali? – Cruella, acaba por desiludir um pouco.  E essa desilusão consegue ser maior do que o seu encanto?

Não.

A atuação refrescante e potente destas Emmas e o figurino digno de vários prémios foram cruciais para que pudesse ficar ansiosa para a sequela – que já foi confirmada – deste live-action que me fez olhar com outros olhos para Emma Stone e Cruella De Vil.


Cruella
Cruella

ANO: 2021

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 2h 14min

REALIZAÇÃO: Craig Gillespie

ELENCO: Emma Stone, Emma Thompson, Joel Fry, Paul Walter

+INFO: IMDb

Cruella

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *