Dashcam quer sentimento por quem não o merece

Não há muitas regras no terror. Aliás, não há muitas regras no cinema. Tudo é mutável e quase tudo pode ser aceitável desde que resulte. Desde que resulte.

Observando a natureza de um filme de terror, é fácil perceber que sensações o género nos pretende transmitir. Nem sempre precisa de ser assustador. Nem sempre precisa de ser sangrento. Nem sempre precisa de ser atmosférico. Devemos, no entanto, sentir algo pelas personagens que estão em perigo. Isso torna elas relatable – perdoem-me preferir o estrangeirismo nesta expressão – e faz com que queiramos que as mesmas saiam daquela situação que as atormenta vivas e de boa saúde. Não quero com isto dizer que todos os finais devam ser feliz. Não. No entanto, os finais que não o sejam devem tocar-nos, devem deixar-nos chocados e abalados como se tivéssemos levado um soco no estômago. Dashcam falha profundamente na sua personagem principal e na forma como a mesma nos é apresentada, nunca permitindo que ela conquiste qualquer espaço que seja.

Annie Hardy – que tem o mesmo nome na vida real – é uma personalidade de extrema-direita – como na vida real – que faz live streaming do seu automóvel, mostrando tudo o que se passa na sua vida, enquanto improvisa um rap manhoso com os comentários dos seus ouvintes. Até aqui seria tolerável. Estou (muito) longe de ser de extrema-direita e não me identifico com tais personalidades, mas sei muito bem separar a arte do artista e sei que uma personagem é uma personagem. O problema é que essa personagem não se limita a ter essas ideias – sendo que tudo isto acontece em plena “época alta” de COVID e, portanto, já podem imaginar… -, sendo sim, uma das personagens mais nojentas, estúpidas e execráveis que alguma vez tivemos no papel principal de um filme.

Ela insulta tudo e todos, ela agride desconhecidos, ela invade propriedades, ela faz o que bem lhe apetece em nome da “liberdade”. Será que senti alguma pena quando ela se viu envolvida numa misteriosa situação que inclui forças sobrenaturais e uma “velhinha” – ou não – com poderes? Claro que não. Eu queria vê-la sofrer o máximo possível e, se possível, que a sua não sobrevivência pudesse satisfazer o meu apetite por gore.

Essa escolha de personagem principal foi o principal e um enorme defeito de Dashcam (que, aliás, nunca usa qualquer…dashcam). Eu até poderia ter perdoado um argumento que parece colado às três pancadas – porquê aquela personagem? Qual é o impacto de termos alguém com aquele tipo de pensamentos para todo o restante filme? O que pretende dizer? – onde parecemos sair de setpiece para setpiece com pouca substância a justificar a sua conexão, podendo ser três curtas separadas. Poderia porque há muito bons efeitos práticos e há algumas cenas efetivas a nível da criação de suspense e isso normalmente consegue ser o mote para um bom filme de found footage, que raramente – ok, o The Medium sim – primam por excelentes argumentos. Poderia até perdoar a excessiva gritaria sem que se perceba muito do que se passa no ecrã. Mas…a verdade é que estava verdadeiramente a marimbar-me para o que se passava no ecrã porque nunca consegui sentir qualquer tipo de empatia por uma desprezível personagem principal que nunca não demonstrou um pingo de empatia por nada nem ninguém. Um tiro ao lado por parte de quem antes se tinha estreado no terror com o excelente Host. Uma enorme desilusão.


Dashcam
Dashcam

ANO: 2022

PAÍS: Reino Unido, EUA

DURAÇÃO: 77 minutos

REALIZAÇÃO: Rob Savage

ELENCO: Annie Hardy; Amar Chadha-Patel; Angela Enahoro

+INFO: IMDb

Dashcam

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