A perfeição de Park Chan-wook em Decision to Leave

Há bons realizadores. Há excelentes realizadores. E há um leque muito reduzido de realizadores que pertencem à nata da elite que colocam a um canto até muitos dos mais consagrados. Park Chan-wook, que antes já nos tinha dado obras-primas como Oldboy ou The Handmaiden, é um desses casos.

Decision to Leave era um dos filmes em que mais expetativas depositava para este ano e isso é sempre um pau de dois bicos, pois altas expetativas resultam, em muitos dos casos, em grandes desilusões. Sabia que Decision to Leave era um thriller investigativo, um dos meus géneros favoritos, mas conhecendo o realizador e argumentista sabia que nada disto seria convencional, sabendo de antemão também que a componente de romance seria elevada.

A premissa do filme é bastante simples. Um homem aparece morto numa zona remota e tudo indica que terá tido um acidente enquanto fazia escalada. No entanto, há algo de misterioso e suspeito acerca do comportamento da sua esposa, Seo-rae, e o detective Hae-jun é encarregue de investigar um caso onde parece aproximar-se cada vez mais da viúva. É uma premissa inicial já vista, mas nada do que o cineasta coreano faz com esse material é algo que alguém tenha alguma vez feito com o género. Desde cedo, Park Chan-wook dá provas de estar no controlo de todos os elementos. A condução do filme é bastante segura, sabendo onde nos quer levar, mas não nos levando nunca pelo caminho mais fácil, sendo necessário focarmos toda a nossa atenção no que está – e não está – no ecrã. Há ângulos de filmagem para todos os gostos – desde alguns totalmente inovadores a outros típicos da marca do realizador -; há justaposição de elementos que se encontram em locais diferentes de uma forma como nunca vi; há uma excelente utilização da tecnologia, algo que filmes do género tanto temem; há uma edição magnífica, com transições do mais belo que o cinema já nos deu; há uma banda-sonora do outro mundo sempre presente (e o tema que marca o filme fica também na cabeça por muitas horas!); há um argumento inteligente que nos puxa e nos aperta fortemente e, por fim, mas não menos importante, há uma condução de atores impecável.

Park Hae-il no papel de detective apresenta-nos uma personagem bastante fácil de nos identificarmos. Uma personagem que não precisa de muitas palavras para dizer o que sente – ou porque está a mentir – e isso só pode ser um grande mérito do ator. Ainda assim, muito do mérito tem que ser, mais uma vez, dado ao realizador que através de certas opções de realização parece colocar-nos completamente dentro da cabeça da personagem, vendo o que ela vê, cheirando o que ela cheira, sentindo o que ela sente. Mas se Park Hae-il está a um nível destacado, a estrela no campo das atuações é Tang Wei como a viúva Seo-rae. O papel de femme fatale assenta-lhe que nem uma luva e diria mesmo que nunca ninguém o fez melhor no grande ecrã. É enigmática, é misteriosa, é convincente e terá apaixonado não apenas o nosso detective, dominando todas as cenas em que está presente. Se no início a sua inocência – que, conveninentemente, se alia ao seu limitado domínio do coreano – nos pede ternura e compaixão, é quando começa a revelar toda a sua personalidade que ainda se torna mais sedutora, nunca deixando de pender sobre ela um manto de perigo que acentua o poder e misticismo de uma personagem que dificilmente algum dia esqueceremos.

Decision to Leave é sempre, mesmo quando muda radicalmente o seu foco, um filme muito interessante de se seguir, deixando-nos sempre tensos sem saber o que poderá vir a seguir. Há três actos distintos e os três funcionam na perfeição, percebendo-se o cuidado que Chan-wook coloca em cada um dos seus elementos. Certos planos – que bela fotografia! – parecem autênticas obras de arte e, talvez seja isso mesmo que eles são, obras de arte dentro da obra-prima que é este filme.

Há aqui muito para falar também a nível temático, claro. Precisaria de um podcast de 3 horas para falar sobre tudo. Mas esperem um filme muito focado no amor, no medo associado ao amor proibido, na traição, no casamento, na mentira, na desconfiança, na vontade em seguir em frente, no que sempre fica dentro de nós, na vontade e na decisão de partir.

De um filme do realizador com esta temática seriam de esperar muitas cenas escaldantes. Afinal, todos nos recordamos de intensas cenas de sexo em vários filmes anterior do cineasta. Chan-wook subverte totalmente essas expetativas. O sexo não tem aqui importância. Aqui falamos de sentimento puro e de um sentimento que está acima do sexo. É, aliás, aí que o mesmo quer chegar em vários momentos do filme: logo na cena inicial quando a esposa do detective sugere que os mesmos fazem sexo regularmente; quando a mesma mulher refere que têm que fazer sexo todas as semanas; quando vemos a única cena de sexo do filme – entre o casal – que é também a cena menos sexy de todo o filme! Pode um filme ser o mais sensual do ano sem nudez e sexo? Não pode. É. O que o cineasta nos quer dizer é claro: sexo e amor são conceitos totalmente distintos. O que o “casal proibido” deseja é algo acima disso e o que os dois sentem um pelo outro é uma fasquia intensa e uma proximidade extrema que ultrapassa quaisquer desejos carnais, indo até ao límite dos seus sentimentos, o interior humano. Este é um filme sobre amor, não um filme sobre um affair.

Park Chan-wook volta a fazer das suas. Com uma proposta mais madura e não tão extrema quanto nos habituou, dá-nos não só o melhor thriller como também o melhor romance do ano. Uma realização assombrosa, uma edição divina e um argumento que nunca vos deixará retirar os olhos do ecrã por um minuto num filme sobre sentimentos que irá despertar sentimentos em todos nós. A prestação de Tang Wei é hipnotizante.


Decision to Leave (Heojil kyolshim)
Decisão de Partir

ANO: 2022

PAÍS: Coreia do Sul

DURAÇÃO: 138 minutos

REALIZAÇÃO: Park Chan-wook

ELENCO: Tang Wei; Park Hae-il; Go Kyung-Pyo; Jung Yi-seo

+INFO: IMDb

Decision to Leave (Heojil kyolshim)

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