Devotion é bem mais do que apenas “o outro”

O filme de aviões de 2022. Não esse. Pode parecer uma brincadeira de mau gosto, mas a verdade é que Top Gun: Maverick e o seu sucesso poderá ser a pior coisa que aconteceu a Devotion. Não me intrepretem mal. Adorei o blockbuster que tem Tom Cruise como estrela maior. Gostei tanto que o coloco como o meu filme norte-americano favorito de 2022. No entanto, a partir daí Devotion – um filme totalmente diferente de Top Gun – tinha o seu destino traçado, não conseguindo evitar injustas comparações.

Antes de mais: se gostaram de Top Gun: Maverick…nada há que garanta que irão gostar de Devotion. O género é outro. O ritmo é outro. Os temas são outros. Sim, os aviões estão lá e Devotion não se esconde disso trazendo inspiradíssimas sequências aéreas com direito a realistas e bem executados combates nos ares. Sim, até Glen Powell está cá num ano em que deverá ter sonhado com o barulho dos motores dos aviões durante 365 dias. Mas Devotion não é um blockbuster de ação. Devotion é um drama de guerra. É um estudo de personagem que toca em temas como o racismo, a integração e a perserverança em perseguir os nossos sonhos. Não nos quer encher o seu através da espetacularidade, mas através dos pés bem assentes na terra.

A história é baseada em fatos verídicos e eu sinto-me até incomodado por não a conhecer previamente (embora isso tenha contribuido para uma maior tensão no último ato). Jesse Brown foi um herói. Um herói do qual o mundo deveria falar todos os dias. No entanto – pelo menos para quem não é norte-americano – a sua história é pouco conhecida. Ele foi o primeiro aviador negro da história da Marinha norte-americana e por tudo e mais alguma coisa passou apenas para poder estar onde outros tinham o seu lugar garantido por muito menos. Brown é aqui incrivelmente interpretado por Jonathan Majors, um ator que não consegue ter uma má prestaçáo.

No cinema foi com o excelente The Last Black Man in San Francisco que Majors saltou para a ribalta e logo depois brilhou em The Harder They Fall e na série Lovecraft Country antes de ser “agarrado” pela MCU onde interpreta Kang. Aqui está na sua praia. Sempre que pode mostra-nos na sua expressividade tudo o que tem para mostrar e tudo o que sente como se isto fosse uma obra literária e lêssemos os seus pensamentos. As cenas onde o mesmo está em frente ao espelho a falar consigo próprio – ou, na verdade, com quem foi-lhe dizendo coisas horríveis ao longo da vida e carreira – são impressionantes e do melhor que este ano nos deu a nível de representação. Não atrás ficam as suas interações com Glen Powell que aqui vive o tenente e colega piloto de caça, Tom Hudner. Hudner nem sempre entende o que vai dentro da cabeça de Brown. Hudner nem sempre se apercebe de todos os seus privilégios face a Brown. Nem sempre sabe encontrar a palavra certa. Ainda assim, tem o coração no sítio certo e, por vezes, isso é o que mais importa. Hudner foi talvez a maior amizade que Brown poderia ter pedido e nunca o escondeu acolhendo-o também no seu reservado cantinho. Glen Powell faz tudo o que é pedido para esta personagem, cumpre o que tem a cumprir e excede tudo isso quando o filme também lhe pede mais nos seus momentos finais.

O último ato deste filme…cinema puro! Se até aí o filme se constrói de forma lenta e cuidada com episódios que servem principalmente para nos envolver com as personagens e perceber o crescimento das suas relações, é nos últimos 40 minutos que o filme levanta vôo, seja ao nível da acção, mas principalmente ao nível do que nos faz sentir. Tão impressionante, tão tocante que nem parece real. Se até aí aguardaram pacientemente o que o filme tinha para vos oferecer, não tem como não se sentirem recompensados pelo impacto emocional que nos traz a sua conclusão. É aí também que podemos observar tudo o que de tecnicamente grandioso este filme tem, com bons efeitos especiais e um explosivo som que nos faz sentir naquele local, naquele avião, naquele momento ímpar da história.

Depois do totalmente diferente – mas igualmente bem construído – Sweetheart, J.D. Dillard volta a mostrar que deve ser um nome a seguir de muito perto, seja em que género for. Devotion irá sempre viver na sombra do maior filme de aviões deste ano. Infelizmente, pois é um filme totalmente diferente. Não é um blockbuster de ação, é um drama de guerra. A enorme atuação de Jonathan Majors, por si só, seria o suficiente para recomendar um filme com forte impacto emocional que cresce ao longo da sua duração.


Devotion
Devotion - Uma História de Heróis

ANO: 2022

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 139 minutos

REALIZAÇÃO: J.D. Dillard

ELENCO: Jonathan Majors; Glen Powell; Christina Jackson

+INFO: IMDb

Devotion

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