Revisualizando: Disforia parece esconder com visual esmaecido roteiro sem sentido

Lucas Cassales nos apresenta em seu primeiro longa a história de Dário (Rafael Sieg), um psicólogo que fica encarregado de tratar de Sofia (Isabella Lima), uma criança misteriosa que faz parte de uma família cercada de segredos. A proposta de Lucas é entregar uma experiência intensa e livre de explicações fáceis, mas acaba se perdendo e por vezes se contradiz.

É seguro afirmar que Disforia busca um tom naturalista, seja na direção de cenas ou na atuação. A realização tenta tirar o máximo de seus atores com takes longos e cenas econômicas em relação a cortes e, ao mesmo tempo, busca deixar o espectador desconfortável, optando por uma fotografia com pouca profundidade de campo, que junto de um filtro de imagem esmaecido, traz um ar lúdico e confuso ao filme. Outro fator que ajuda na construção dessa atmosfera é o tratamento de som e trilha sonora, que cumprem muito bem o seu papel e são essenciais para um dos elementos de maior destaque do longa: as quebras de ritmo e tom causados pelo encontro de Dário com Sofia. Esses momentos se destacam por trazer uma trilha muito mais invasiva e uma montagem pontual, usando cortes rápidos que apresentam cenas confusas e perturbadoras, criando alguns dos momentos mais memoráveis da obra.

Porém, é importante ressaltar que a atuação não entrega sempre essa naturalidade sugerida. De um modo geral, o elenco faz um ótimo trabalho, mas alguns atores acabam destoando dos demais por apresentarem uma performance mais automática. O núcleo familiar de Dário, por exemplo, convence com sua atuação (destaque para Roberto Oliveira, que interpreta Osmar), enquanto o de Sofia deixa muito a desejar. Algo interessante de se comentar é o caso de Vinícius Ferreira, que interpreta Paolo, o pai de Sofia. É curioso notar que Ferreira atua de forma canastrona em suas cenas que se passam no tempo atual, enquanto nas cenas que demonstram as gravações feitas por Paolo no passado, apresenta uma ótima  atuação. A impressão que fica é que Vinícius não entendeu completamente seu personagem, o que acaba sendo uma falha considerável para a obra.

Entretanto, o pior problema de Disforia está no seu enredo como um todo. A premissa inicial é desenvolver um suspense baseado na relação de Dário com Sofia, a interação desses dois personagens deveria nortear a história e conduzir o espectador até a sua conclusão. Ao invés disso, o que o filme nos entrega são apenas duas cenas curtas de encontro entre os dois, que resulta em diálogos curtos e rasos, além de todas as alucinações envolvidas. O resultado disso é um clímax sem sentido: ao final do filme, Dário é apresentado como vínculo necessário para a salvação de Sofia, o que levanta a pergunta: que vínculo?

Entre todos esses problemas, cabe também citar os já citados diários de vídeo de Paolo. Até certo ponto, essa ideia funciona, sendo uma adição interessante à trama. A questão é que a proposta se perde ao chegar no terceiro ato, onde um de seus vídeos diários serve como uma terrível cena de explicação digna dos piores blockbusters americanos. Não bastasse isso, Lucas escolhe fazer uso de um formato found footage semelhante aos usados na leva de filmes derivados do fenômeno Atividade Paranormal, que gerou dezenas de péssimos filmes em que seus protagonistas mantém os personagens em foco na câmera independente da situação. Para um filme que se propõe a não revelar seus mistérios, deixando no ar a relação da esposa de Dário com Sofia, por exemplo, investir em uma cena que nos explica o que já entendemos do enredo nesse ponto da história, demonstra que essa postura de trama misteriosa talvez seja uma máscara para um roteiro sem sentido.

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