Don’t Look Up é uma sátira assustadoramente real

Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence, Meryl Streep, Cate Blanchett, Jonah Hill, Mark Rylance, Tyler Perry, Timothée Chalamet, Ron Perlman, Ariana Grande… é muito raro ver um elenco composto por tantos pesos pesados de Hollywood, mas Adam McKay foi capaz de reuni-los a todos para este necessário filme da Netflix.

Don’t Look Up fala-nos de uma descoberta feita por uma dupla de cientistas – Dr. Randall Mindy (DiCaprio) e Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) – que poderá levar à exterminação da vida na Terra. Qual é a probabilidade de o cometa descoberto impactar na Terra, levando a uma série de explosões, tremores de terra e maremotos, que acabará com a raça humana? 100%, ou melhor, 99.78%! A ameaça credível é confirmada por vários cientistas de renome, mas nem isso parece convencer grande parte da raça humana a atuar. Pior: entre os que pouca importância dão está a Administração da Casa Branca!

Adam McKay opta por uma crítica satírica ao clima político e social que atualmente vivemos. Dois lados opostos que não conseguem conversar e nem chegar a consensos básicos necessários para que todos possamos continuar a viver em sociedade; a incapacidade da ciência em convencer camadas da população facilmente manipuláveis que de tudo duvidam, alimentadas por maliciosas campanhas de desinformação; o materialismo que coloca o lucro fácil à frente de vida humanas, não conseguindo ver para além do momento atual; o poder e as opções tomadas por quem este o possui e por quem o tem pela primeira vez (como quando até o Dr. Mindy descarrila…); os ricos que tudo fazem para que possam ficar mais ricos e que são os primeiros – os únicos? – a ter uma boia de salvação caso tudo dê para o torto.

McKay faz isto tudo sem qualquer subtileza. Essa é uma crítica que muitos lhe fazem na escrita (e realização) – The Big Short pouco subtil o foi e Vice ainda menos – mas o próprio parece não se importar com isso. Nem eu. Tal como não gosto de filmes que me tentem doutrinar – e alguns poderão achar isso deste filme – também não gosto que alguém tenha que esconder aquilo que é e aquilo no qual acredita, principalmente quando a esmagadora maioria dessas convicções está suportada no conhecimento e método científico. A irmos para um filme de McKay sabemos com o que contar. A irmos para uma obra política satírica do mesmo, sabemos exatamente o caminho que ele irá seguir sem desvios.

Paralelismos para com a situação pandémica atual – e descrença de grupos para com a comunidade científica – poderão ser facilmente elaborados.  Paralelismos para com casos de políticos a encobrirem escândalos pessoais, fazendo “a coisa certa” também são fáceis de fazer. Nada, no entanto, é mais óbvio do que os paralelismos para com a questão das alterações climáticas e a falta de ação por parte de todos nós, que vemos o acidente a acontecer, em grande escala, à nossa frente e preferimos dar atenção a atritos políticos ou a escândalos de celebridades. Ainda assim, claro que tendo o cidadão comum uma grande quota parte de responsabilidade – não só pela forma como assobiamos para o lado, mas como, sistematicamente, elegemos maus políticos – McKay quer também deixar claro que o cidadão comum é apenas um peão num jogo manipulado por aqueles que têm o real poder de mudar a trajetória da raça humana como coletivo único.

No campo das atuações, a dupla principal está bastante bem, especialmente DiCaprio, com alguns dos mais marcantes discursos e mensagens, passadas com grande relevância e clareza. É especialmente incrível o momento em que o mesmo perde a cabeça em direto – “Se não conseguimos concordar no mínimo (…) o que raio aconteceu connosco? (…) Como é que nós podemos, pelo menos, falar uns com os outros?”. Meryl Streep no papel de Presidente faz-nos lembrar um tal de Trump de forma, infelizmente, fiel; Jonah Hill no papel de seu filho tem uma boa interpretação como o menininho rico, de mente pouco brilhante, que nada fez para ter o que tem na vida na vida, mas que sente que tudo pode fazer; e Mark Rylance tem uma grande atuação como o empresário bilionário que só quer aumentar o fundo dos seus milionários bolsos, não olhando a meios para atingir os fins.

Os valores de produção de Don’t Look Up estão a um nível altíssimo, com um trabalho de edição impecável, com vários cortes e informação no ecrã a dar todo o ar de uma obra moderna que quer chegar a várias faixas etárias, especialmente a todas as que têm o futuro – cada vez mais negro e quente – e a opção de mudar o planeta à sua frente. As piadas nem sempre resultam, mas a forma irónica (por vezes, absurda) e, simultaneamente, realista com que aborda temáticas tão urgentes da nossa sociedade faz desta uma experiência única e essencial. Don’t Look Up é uma sátira política e social que não esconde ao que vem. Diverte, sendo um importante veículo de transmissão para várias mensagens que precisam de chegar aos seus destinatários. A principal? Escutem mais os cientistas e os especialistas e menos os vossos grupos do Facebook, Twitter e WhatsApp.


Don't Look Up
Não Olhem para Cima

ANO: 2021

PAÍS: 2021

DURAÇÃO: 138 minutos

REALIZAÇÃO: Adam McKay

ELENCO: Leonardo DiCaprio; Jennifer Lawrence; Meryl Streep; Cate Blanchett; Rob Morgan; Jonah Hill; Mark Rylance Mark Rylance; Tyler Perry; Timothée Chalamet; Ron Perlman; Ariana Grande

+INFO: IMDb

Don't Look Up

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