Don’t Worry Darling é melhor do que o temido mas não atinge todo o potencial

Quando Don’t Worry Darling foi anunciado a expetativa era muita. Um elenco de luxo, uma realizadora que já tinha dado mostras do seu talento e um enredo misterioso que prometia surpresas e alguma crítica social. Depois vieram todas as polémicas. Começaram por rumores de mau ambiente e conflitos durante as filmagens, continuaram com a substituição de Shia LaBeouf por Harry Styles no papel masculino principal e nunca pararam até culminar na recusa de Florence Pugh em participar em quaisquer acções promocionais do filme com excepção feita à apresentação no Festival de Veneza, uma apresentação que se viria a revelar um filme em si mesmo. Caso queiram saber mais sobre todas essas intrigas – que certamente dariam um outro belo filme – o Google é amigo. Falemos do filme.

Don’t Worry Darling fala-nos de uma sociedade onde todos os homens trabalham num misterioso projeto – saindo todos de casa ao mesmo tempo, o que nos dá alguns dos mais interessantes planos do filme – e as mulheres “apenas” se têm que preocupar em serem boas donas de casa, tendo ainda bastante tempo para atividades de lazer durante o dia. Um luxo para muitas, mas não para outras, como se pode comprovar pela insatisfação que Alice (Florence Pugh) começa a sentir em ter uma vida demasiado banal onde parece ter pouco poder de dizer o que pensa ou ser quem quer ser. Alice suspeita também que algo de errado se passa naquela comunidade, algo que parece ter sido despoletado não apenas por alguns estranhos vívidos sonhos que mais parecem flashbacks, mas principalmente depois de ver os comportamentos de Margaret (Kiki Layne), uma sua amiga que parece “ter-se passado”.

A premissa do filme é bastante interessante e faz-nos recordar um pouco de outras obras da história do cinema e da televisão. Muito de Stepford Wives, um pouco de filmes como Get Out, um pouco de séries como Black Mirror, um pouco Hitchcockiano. Dada essa premissa confesso que esperava algo mais tenso e excitante, principalmente na sua primeira metade. Somos introduzidos àquele estranho mundo, mas é difícil, inicialmente, entendermos tantas suspeitas, pois há poucos elementos que justifiquem o despoletar de toda a paranóia por parte de Alice. Curiosamente, no entanto, é através da excelente prestação de Florence Pugh que continuamos investidos no filme e nos seus mistérios, mesmo quando o ritmo parece derrapar e nada de muito interessante parece acontecer. Olivia Wilde, Chris Pine, Gemma Chan e Kiki Layne – embora sub-utilizada – também contribuem com boas atuações e mesmo Harry Styles não é o desastre que se temia.

Durante este tempo são também os visuais de Don’t Worry Darling – acompanhados por uma sinistra banda sonora nas cenas mais misteriosas – que nos vão cativando com uma fotografia e design de produção bastante interessantes que nos fazem mesmo entrar e acreditar naquele mundo.

Claro que com este conceito, todos aguardamos um twist final. Claro que não vos vou contar qual é, mas posso afirmar que o mesmo não é consensual. Pessoalmente, considero ser um twist que resulta e que até chega a entusiasmar, embora talvez preferisse que o mesmo tivesse chegado um pouco mais cedo ou que tivesse sido acompanhando de mais pistas que nos pudessem abrir mais as portas daquele assustador mundo do qual muito pouco ficamos a saber.

Quando tive oportunidade de assistir a esta obra, já tinha todo contacto com alguma receção crítica, nomeadamente de alguns festivais de cinema. Não querendo falar de opiniões de outros meus colegas, temo que os preconceitos que muitos trouxeram em relação às polémicas acabaram por influenciar opiniões que se deveriam cingir ao que está no ecrã e não vou embarcar nesse punching down. É verdade que Don’t Worry Darling não explora suficientemente o seu excelente conceito. É, ainda assim, um filme que consegue manter-nos o interesse com o seu mistério, excelentes elementos técnicos e boas atuações. Não se deixem influenciar em demasia pelas polémicas – como muitos parecem ter sido – e desfrutem do que nos é dado.


Don't Worry Darling
Não Te Preocupes, Querida

ANO: 2022

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 123 minutos

REALIZAÇÃO: Olivia Wilde

ELENCO: Florence Pugh; Harry Styles; Olivia Wilde; Chris Pine; Gemma Chan; Kiki Layne

+INFO: IMDb

Don't Worry Darling

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *