Dune: Part Two (ou o exercício do estabelecimento)

Part One é a fundação e construção da casa. Part Two é a observação do agregado familiar mudar-se para essa casa, encontrar o seu espaço, debater por mais espaço e estabelecer relações. Denis Villeneuve é actualmente o melhor realizador a construir tensão na tela.

A atmosfera está intocável vinda do primeiro filme. O deserto continua a ser vasto, épico, interessante, belo, simples. Villeneuve sabe que não se trata disso agora, mas não descura nunca da estética que marcou e vinca nesta entrega de melhor passadas duas horas e quarenta e cinco minutos de rodagem por contraste às nada más, mas pesadas duas horas e trinta e cinco minutos de Part One.

Villeneuve convida imensa comida ao seu prato, com mais exploração das nuances dos elementos que povoam Arrakis (Fremen, Harkonnen) e as suas esferas interseccionais sociais, políticas, económicas e religiosas.

Junte-se a isto um florescimento e colheita de frutos da trama amorosa entre Paul e Chani (Zendaya), o desenvolvimento do arco de Paul e a sua mãe Jessica (Rebecca Ferguson), a escalada de violência e gravidade, risco, potenciais perdas, consequências e todo o menu do restaurante está à vista de todos, com a fasquia perigosamente elevada de como e o que o realizador e guionistas pretendem resolver neste filme e deixar estabelecido para o próximo e último Dune: Messiah.

Agora uma pausa sobre o enredo para começar o desdobramento sobre o elenco.

Timothée Chalamet não é um bom actor.

Lamento. Lamento mesmo, muito.

Timothée Chalamet poderá ser a Kristen Dunst da sua geração. Tem momentos, laivos, fogachos, suspiros, mas apenas e somente isso. A insistência em tornar o virar de cara como expositor de emoções é tão irritante quanto o levantar de cara e olhar semicerrado que deu carreira ao George Clooney. Fico muito triste pois o que Paul Muad’Dib Usul Atreides tem de tanto para mostrar transformação e crescimento parece castrado ou pela edição, ou pelo ritmo do filme ou pela interpretação e comum acordo entre actor e realizador.

 

 

Rebecca Ferguson está em tão excelente forma como apareceu no primeiro filme. A fazer jogo-duplo entre a sua missão e o seu filho, é notável como dá por si a representar uma donzela de filme de época vitoriana num épico espacial sobre anfetaminas da areia.

 

 

Javier Bardem é Morpheus da primeira trilogia de Matrix. Todo aquele peso de sabedoria emparelhado com excelência no combate na areia de Stilgar vai para o banco, para dar lugar a um crente a roçar o fanatismo que acredita piamente que Paul é O Tal, tal que está disposto a dar a própria vida para ver a sua fé fomentada pelo desespero da salvação do seu povo colher algum remoto fruto. É estranho que uma personagem onde ter respostas, o controlo e a ponderação foram a marca do primeiro filme e no segundo esteja mais diluída a um ícone de fortalecimento do protagonista.

 

 

Austin Butler está irreconhecível como o principal vilão deste filme. Feyd-Rautha é sobrinho do Barão Vladimir Harkonnen (Stellan Skarsgård) e primo do Barão Rabban (Dave Bautista).

É péssimo o trabalho feito com ele.

É com tremenda dor que vejo potencial para este vilão ter sido proposto, apresentado, e estabelecido bem mais cedo no filme para ter tanta inacção e inconsequência. Remeteu-me imediatamente ao que acho o maior desperdício de vilania da história do entretenimento filmado com Ramsay Bolton de Game of Thrones.

 

 

Ainda falando em Game of Thrones há duas cenas que me fizeram rir imenso por dentro por serem cópias chapadas em conceito (cavaleiros dothraki desaparecem na noite, fogo das tochas é extinto, cavalos voltam sem cavaleiros, logicamente assumidos mortos pelo exército white-walker) e por uma luta construída por alto poder destrutivo de combate por parte de uma personagem ser resolvida em 15 segundos e uma facada (Aria Stark faz um David Blaine e mata o maior vilão de toda a saga com uma adaga coiso).

Josh Brolin, Florence Pugh, Christopher Walken e Léa Seydoux aparecem porque sim neste filme. Não vou ser injusto com o que fizeram ou tiveram para fazer. São claramente ingredientes para uma nova viagem gastronómica em Dune: Messiah. Vou perdoar.

Voltando ao enredo: acho de muito mau gosto que de repente existisse informação sobre onde fica a cidadela Fremen no Norte para os Harkonnen exercerem pressão sobre ela, qual deus ex machina para forçar a decisão de Paul que até esse momento (cerca de dois terços do filme) se recusa a tomar para daí ser o gatilho para o terceiro acto.

Cronologicamente é barato o que me foi servido. Não faz sentido oferecerem-me pão com manteiga entre risotto de trufas negras e bacalhau à lagareiro.

Se esta informação existia, porque só justamente nesse momento, com certo antagonista se decidiu agir e partir para cima da informação? Não sei. Mas saiu mal e não passou despercebido.

No cômputo geral, Dune: Part Two continua a ser lindíssimo, continua a ser interessante, agora tem estabelecido o que construiu em Part One e visa resolver tudo em Messiah.

Villeneuve não desaponta apesar das falhas. Ainda não me decidi se o perdoo por continuar a tornar boa em adaptação a dita obra inadaptável ou se exijo mais dele pelo que me tem entregado até agora. Não obstante, não estou triste, apesar de não ter ficado estarrecido como no primeiro filme e vou aguardar sabiamente pela terceira parte para me decidir.


Dune: Part Two
Duna: Parte Dois

ANO: 2024

PAÍS: EUA/Canadá

DURAÇÃO: 166 min.

REALIZAÇÃO: Denis Villeneuve

ELENCO: Timothée Chalamet, Rebecca Ferguson, Zendaya, Javier Bardem

+INFO: IMDb

Dune: Part Two

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