Emancipation tem qualidade, mas tenta ser demasiado

Seria Emancipation um filme recebido de forma diferente não tivesse acontecido uma tal de chapada? Essa é uma grande questão impossível de responder. Afinal, intrisecamente, todos julgamos a arte de forma diferente e não apenas tendo em conta o que vemos no ecrã. Farei o meu melhor para que este julgamento seja o mais objetivo possível tendo em conta o filme e a seriedade da história no qual é baseado.

Emancipation. O nome por si só diz muito. Baseado em acontecimentos e personagens reais, Will Smith é Peter, um homem escravo que tudo faz para encontrar a liberade e o lugar junto à sua familia, lutando primeiro pela sua própria sobrevivência e depois pela emancipação de toda uma raça sequestada por quem se julga superior. Por aqui já se percebe que isto é capaz de procurar fazer demasiadas coisas. É, sem dúvida, ousado tentar que toda esta história resulte num formato curto como é o cinema. No primeiro ato, onde vemos Peter a ser humilhado, subjugado e mal-tratado por outros, percebemos a sua revolta. Apercebemo-nos da sua vontade de lutar por algo, nunca sabendo até onde poderá ir a sua “desobediência”, palavra utilizada no filme por quem não percebe o que é a condição de escravizado. Esse primeiro ato é curto. Os acontecimentos passam a correr, embora aqui e ali Antoine Fuqua nos vá mostrando que não vem aqui para esconder nada e que irá retratar de forma cruel a violência no ecrã.

No segundo ato, Emancipation é um filme de sobrevivência. Numa espécie de The Revenant, Peter tem que fugir de homens cruéis, percebe que a melhor forma de jogar em equipa é jogando sozinho, tem que lutar com um jacaré, tem que enfrentar cobras, tem que ficar submerso sem respirar alguns minutos e tem, acima de tudo, que sofrer e sobreviver num pantanal recheado de perigos. Apesar de ter algumas cenas espetaculates e realmente entusiasmantes, este ato tem o problema de tornar o filme demasiado pesado e até repetitivo, parecendo que o tempo demora passar. No terceiro ato, Emancipation passa a ser um filme de guerra. Peter vai agora lutar – agora sim, em equipa – para algo mais do que apenas a sua sobrevivência, vai lutar pela libertação de todas aquelas pessoas, incluindo da sua família. Esta é a fase do filme maior em termos de escala, dando-nos até uma batalha que fica pouco a dever ao que de melhor já foi feito nos grandes filmes de guerra, com um estilo de filmagem crú e alucinante.

Ainda que nenhum dos atos seja manifestamente fraco, a coerência narrativa de Emancipation sente-se afetada por essa distinção de géneros. Talvez em nenhum dos seus atos vá tão longe quanto poderia ter ido caso tivesse apostado mais num dos seus géneros. No entanto, julguemos o filme pelo que é. É um bom filme. Narrativamente tem problemas. Funciona melhor nas cenas de acção do que nas cenas dramáticas. No entanto, não faz nada manifestamente mal, tem excelentes valores de produção e fortes atuações. A cinematografia não será consensual. Muitos dirão que a tonalidade escolhida não lhe dá nada de bom. Eu, no entanto, sou um fã da opção de preto e branco pela forma como realça muitos dos perigos e a frieza da mãe-natureza. Muito ajuda também que Fuqua filme como nunca antes filmou. Ele que é maioritariamente um realizador de acção, demonstra aqui um bom olho para belas paisagens, interessantes ângulos e um movimento de câmara que se adequa ao que nos mostra no ecrã.

Agora é o momento de falarmos de Will Smith. Sim, o homem da bofetada. Tem ele aqui uma boa interpretação? Escusado será dizer que sim. O sotaque pode não ser sempre convincente, mas a forma como ele emprega as suas habilidades de sobrevivência e luta num registo mais contido do que seria de esperar, é de destacar e poderia muito bem voltar a ser nomeado a um Óscar da Academia – principalmente num ano fraco na categoria. Poderia, mas não vai ser. Sabemos porquê. Passemos aos seus colegas. Ben Foster é muito convincente no papel de caçador de escravos, tanto que até pensei que já o tivesse visto antes num papel semelhante. É, ainda assim, Charmaine Bingwa que tem o maior destaque nos papéis secundários, vivendo a mulher de Peter, Dodienne, tendo direito às cenas emocionalmente mais fortes da obra.

Apesar das suas fraquezas narrativas e de um repetitivo ato intermédio, Emancipation é um filme que satisfaz através dos seus excelentes valores de produção e fortes atuações. Tenta ser demasiadas coisas e isso faz com que não brilhe tanto quanto poderia, mas merece a visualização.


Emancipation
Emancipation

ANO: 2022

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 132 minutos

REALIZAÇÃO: Antoine Fuqua

ELENCO: Will Smith; Ben Foster; Charmaine Bingwa

+INFO: IMDb

Emancipation

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