Empire of Light (ou como a agenda é explorada por um viés invulgar)

Sam Mendes realizou e escreveu isto. Deve ter perdido uma aposta ou deve estar a preparar a sua defesa de algum processo ou alegações que possam vir a assombrá-lo. Tanto esta minha teoria como as suas intenções com o filme estão dissimuladamente camufladas do que de verdade se pretende com tudo isto.

Olivia Colman carrega este filme às costas. Esta interpretação assombrosa tem de ser recalcitrantemente sublinhada. Vi Tár e Cate Blanchett está incrível, a roçar a perfeição mas Olivia Colman faz rotundas à volta da sua colega australiana.

Sou o primeiro a assumir e afirmar que não me movo por interpretações de atrizes, em ampla maioria por desconhecimento e inexploração. Frances McDormand está no meu panteão pessoal, tal como Dame Ellen Mirren e a incontornável Margot Robbie, para demonstrar que não sou de bolhas ou de eras.

Isto não é uma tentativa de defesa ou contrição. É um enquadramento. É uma justificação, ou melhor, é uma explicação para dizer que de tudo o que vi e me falta ver dos nomes citados, Olivia Colman é avassaladora em Empire of Light. Ela consegue ser 3 pessoas distintas que são a mesma pessoa com o que a realidade envolvente à sua personagem Hilary lhe faz reagir e ter de confrontar.

Hilary sofre de algo. Sofre de algo clínico, sofre de algo emocional, sofre de algo profundo e sofre. Sofre muito. Quando tenta reerguer-se pela forma linear de acompanhamento, conhece alguém que lhe abana com as fundações e fá-la acreditar em si. Fá-la acreditar que não tem de sofrer mais ou tanto mais, ou de todo. Há a crença de que quem gosta de si por si, fá-la gostar de si como nunca gostou antes. Quem gosta de si e a alimenta de vitalidade e dinâmica é Stephen interpretado por Micheal Ward, um jovem negro (de pronunciada diferença de idade de Hilary) que vai trabalhar para o cinema onde ela trabalha.

E é aqui que tudo descamba. Explora-se o arco de Hilary e depois deixa de se explorar esse arco para dar ênfase narrativa à história de amor pseudo-proibido por ser uma mulher de meia-idade branca com um rapaz negro num enquadramento de forte tensão racial de um Reino Unido da década de 80, onde o escapismo desse enquadramento cru e violento é alegórico à esfera de maior preponderância da história que é o cinema onde todos eles trabalham.

Descamba porque, apesar de ser uma boa ideia e, à medida que escrevo sobre isto, me cai a ficha do subtexto, ou me cai a iluminação de ver sentido ou nexo nisto, podendo estar a cair na armadilha da benevolência caridosa de não irromper por ego adentro do que Sam Mendes tentou aqui, tentou falar de muitas questões importantes com tremenda importância mas com uma fluidez de pedra nos rins onde a dor de urinar já nem se descreve. Apenas sente-se e faz parte da marca da primeira hora de rodagem para a frente onde ardor aglutina-se a essa dor e depois sangue aglutina-se a esse ardor que coloriu a dor, numa incontinência complicada de lidar, apenas deslumbrantemente distraída quer pela reiterada monstruosa interpretação de Olivia Colman e filmografia de franco bom-gosto.

Aborda-se a questão do racismo daquela sociedade para com Stephen. Aborda-se a questão do racismo e classismo quando Stephen se desmotiva de perseguir a vida académica e se resigna à realidade de trabalhar naquele cinema. Aborda-se a questão da saúde mental e de como se tira partido de quem sofre disto, com alguma conivência de quem sofre disto, porque anseia ser normal, ter algum laivo de normalidade, ter alguma pulsação de que é mais um em vez de especial pela negativa, pela vida, pelas vivências. Aborda-se a 7ª arte como forma de fugir do que dói e é real pela beleza da viagem de emoções pelo que é filmado. Aborda-se o amor: o próprio, a falta dele, por outrem, a falta desse também, o proibido, o profano, o errado, o vazio do amor, como se suplanta esse vazio, ou se finge preencher.

Mas todas estas coisas abordadas de forma estranha. De repente já não é fundamentalmente sobre uma coisa e passa a ser fundamentalmente sobre outra. Quanto mais penso no que vi e me fez sentir e reflectir, menos consigo encaixar o que provavelmente poderá ter encaixe.

Juro que não estou a forçar-me a não gostar disto. Olivia Colman não merece isso de mim. Amei-a mais do que Hilary jamais se sentiu amada. Talvez seja este o problema. Claramente Hilary é a personagem principal e isto tudo é um ensaio sobre a sua vida, como impacta outras e outras a impactam, até a sua a si mesma. Mas depois quer dar-se enfoque a tanto mais que quase pretere Hilary de tudo isso. E não gostei. Isto não é Iñarritu, isto não é um Babel da vida, isto não é multi-narrativo.

É isso. Acho que é por aqui. Isto quis ser muita coisa com muita coisa que daria facilmente para fazer uma minissérie, mas quis encaixotar-se tudo em pouco menos de duas horas e acabou por não fazer justiça a nada do que expôs, à parte de Hilary que me faz repetir o irrepetível da sua prestação e me permite terminar esta reflexão tal como a comecei: inenarrável.


Empire of Light
Império da Luz

ANO: 2022

PAÍS: Reino-Unido

DURAÇÃO: 115 min.

REALIZAÇÃO: Sam Mendes

ELENCO: Olivia Colman, Micheal Ward, Colin Firth

+INFO: IMDb

Empire of Light

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