Encounter tem pressa em contar ao que veio

Este é um daqueles filmes complicados de falar o que quer que seja. Podendo esta crítica, por vezes, parecer demasiado superficial, considero a falta de elementos necessária para quem quer experienciar Encounter.

Na história, um decorado fuzileiro parte numa missão para salvar os seus dois filhos de uma perigosa ameaça que põe em risco a vida humana. A mãe dos rapazes – infetada – é deixada para trás com o padrasto, prometendo Malik Khan lá voltar assim que tenha uma cura para a mesma. Malik Khan é o ponto alto do filme. Ou melhor, Riz Ahmed. Riz Ahmed tem uma expressão que nos tenta a pensar que faz sempre o mesmo papel ou que até tem pouca expressividade, mas cada vez me convenço mais de que isso é um truque que o mesmo utiliza no momento em que nos apresenta as suas personagens, expandindo-as depois para patamares imprevisivelmente emocionais. Aqui, como Malik, várias vezes cruza a barreira do razoável em busca do que este define ser o bem maior; aqui, várias vezes, coloca-nos a pensar se tudo estará bem com ele; aqui várias vezes nos mostra as suas forças e as suas fragilidades, dando um carácter multidimensional à personagem. Os dois jovens – interpretados por Lucian-River Chauhan e Aditya Geddada – estão à altura dos acontecimentos e proporcionam alguma importantes paragens emocionais da obra, num elenco que conta ainda com atores famosos, como Octavia Spencer e Rory Cochrane, que se limitam a cumprir o que lhes é exigido.

O filme, no entanto, não é apenas sobre as suas personagens. Michael Pearce realiza (e co-escreve) e, do ponto de vista, da utilização da câmara até tem momentos de superação, principalmente na forma claustrofóbica como aborda os momentos mais tensos (muitas vezes em espaços fechados, mas também com belas cenas no deserto). No entanto, milagres não existem. Um bom guião pode ser transformado num mau filme, mas nunca um mau guião dará um bom filme. Tudo está bem quando a escrita faz crescer as personagens e nos faz querer confiar nelas. Tudo está mal quando o filme dá uma volta de 180 graus, não pela volta em si, mas porque não parece que Pearce e Joe Barton saibam o que fazer com essa segunda metade do filme. A ânsia que Encounter tem em nos dar uma resolução antes de ser a hora de resolver algo é o que lhe diminui enquanto obra, tornando-a esquecível e mais uma entre tantas outras.

Nas componentes técnicas, há a destacar uma interessante banda-sonora e um excelente trabalho de fotografia de Benjamin Kracun, que no passado já tinha brilhado em Promising Young Woman. Ainda assim, os elementos técnicos de pouco servem se o esqueleto do filme não lá estiver. Encounter é uma espécie de dois filmes num só. A primeira parte prende o interesse. A segunda tinha condições para fazer o mesmo, não fosse a sua enorme pressa em nos apresentar as suas conclusões. Riz Ahmed tem mais uma boa interpretação, mas nem ele é capaz de salvar isto de ser apenas “mais um”.


Encounter
Encounter

ANO: 2021

PAÍS: Reino Unido; EUA

DURAÇÃO: 108 minutos

REALIZAÇÃO: Michael Pearce

ELENCO: Riz Ahmed; Octavia Spencer; Lucian-River Chauhan; Aditya Geddada; Rory Cochrane

+INFO: IMDb

Encounter

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