O balanço relacional de Evil Does Not Exist

Ryûsuke Hamaguchi tem a sua própria linguagem de cinema. Aqui não se esperam 41 minutos para que o título apareça no ecrã – o que aconteceu em Drive My Car – mas muito do que é característico do próprio aqui está. O ritmo é lento, as conversas são calmas, não há tons demasiado elevados, pouca coisa parece acontecer, mas por tão pouca coisa parecer acontecer, somos obrigados a atentar nos detalhes e é nos detalhes que o cineasta japonês quer mesmo que nos foquemos. 

Durante grande parte desta obra – e talvez por grande parte queira dizer “todo o filme exceto a última cena” – não nos é fácil entender a razão do título Evil Does Not Exist. Mesmo após a cena final, muito é dado para diferentes interpretações. Algo que, ainda assim, parece claro é que Hamaguchi quis muito falar da nossa relação com a natureza. Balanço. É uma palavra muito utilizada – e que muito explicará também do tal final – e é algo que a raça humana, embebida de um arrogante sentido de superioridade, se tem esquecido. 

Na história do filme, um novo empreendimento de glamping para turistas vai começar a ser construído numa pequena comunidade rural. Essa comunidade caracteriza-se por ter uma relação muito próxima com a natureza, seja pelo conjunto de atividades que faz ao ar livre utilizando os recursos naturais existentes, seja pelo respeito pela vida animal também presente na região. Este novo projeto traz consigo muitas dúvidas em relação à manutenção desse equilíbrio. Mas os habitantes locais deixam claro desde o princípio: qualquer novo projeto só será aceite por estes caso o equilíbrio se mantenha. 

Mas isto é Hamaguchi.Não é apenas na natureza que ele se quer focar. As relações humanas estão no centro de qualquer das suas histórias e aqui há um leque muito interessante de personagens, muito diferentes entre si e com aspirações também elas diferentes. Neste campo, especialmente interessante é observar a dictomia entre as pessoas daquela pequena comunidade e as pessoas da cidade que ali chegam para tentarem convencer os locais de que aquele projeto será bom para todos. O distanciamento inicial parece encurtar quando os forasteiros parecem começar a compreender melhor as gentes locais e aquilo que as comanda. Será ainda assim um terreno em comum duradouro? Será que essa aproximação será o suficiente para que o balanço seja mantido? 

Do ponto de vista visual este é, possivelmente, o trabalho mais marcante de Hamaguchi. Os belos cenários naturais são elevados pela sua elevada capacidade de filmar planos abertos e longos. A imensidão da neve branca e pura parece assentar na perfeição com o título do filme e com as motivações e razões que comandam aquelas formas de vida. A câmara mexe-se de modo fascinante, com uma segurança ímpar de quem faz o que faz de olhos fechados. Até quando filma espaços interiores – como a excelente cena onde o projeto é apresentado aos locais – o cineasta sabe o que quer, optando por planos onde a câmara se afasta ou se aproxima, dizendo-nos exatamente o que vai na alma daquelas pessoas. O mesmo é feito de modo exemplar numa aparentemente cena banal entre os dois forasteiros dentro de um carro, uma cena tão simples e com tanto a dizer sobre aquelas duas personagens, o que também diz muito do excelente trabalho de escrita. Mas ao falarmos de escrita, melhor elogio não há do que o que o filme não diz concretamente, mas sim sobre aquilo que nos deixa a pensar. E muito aqui há para refletir e argumentar horas, dias, semanas, meses, anos depois de visualizarmos uma obra aparentemente tão simples, mas tão provocadora e com tão fortes significados.

Evil Does Not Exist não é um filme para uma audiência casual. É um filme para ser absorvido que também nos absorve nos seus belos cenários, nos seus ritmos lentos e nas suas diferentes personagens. A calma e quietude próprias do cinema de Hamaguchi podem ser confundidas com monotonia, mas tudo o que tem para nos dizer sobre relações – sejam estas entre humanos ou entre estes e a natureza – é-nos dito. E até de uma forma inesperadamente brutal.


Evil Does Not Exist
Aku wa sonzai shinai

ANO: 2024

PAÍS: Japão

DURAÇÃO: 106 minutos

REALIZAÇÃO: Ryûsuke Hamaguchi

ELENCO: Hitoshi Omika; Ryo Nishikawa; Ryuji Kosaka; Ayaka Shibutani

+INFO: IMDb

Evil Does Not Exist

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *