O ruído nervoso do motor de Ferrari

Enzo Ferrari passa por maus bocados. Sua empresa corre sérios riscos de falência, enquanto seu casamento com Laura Ferrari, que também é sócio-fundadora da empresa, enfrenta uma grande crise. Nesta trama pavimentada de personagens cinzentas e complexas, que navegam entre os extremos da frieza e do calor como se de mecanismos de metal fossem constituídas, Ferrari mantém a tensão sempre às alturas.

Mesmo em seus momentos mais mornos, Ferrari permanece com os nervos à flor da pele. A atmosfera do filme é carregada, portadora de uma ansiedade que transpira de cada personagem, cenário, e/ou motor que range em cena. Não há quietude que não estremeça, ou silêncio que não grite com o cantar pneus de Ferrari. A situação retratada na trama é de extrema instabilidade psicológica, sentimental e financeira, e sentimos isso em cada minuto do longa.

E dentre toda essa carga, as representações das duas personagens centrais são o que há de mais impactante nessa obra. Na pele de Enzo, Adam Driver é frio, meticuloso, e dono de uma postura dominante e impositiva. Penélope Cruz é Laura Ferrari, uma mulher abalada por uma tragédia recente, e pela indiferença do marido que não nega suas infidelidades. Enzo, apesar de sua pose de homem imbatível, se vê tremendamente abalado, inseguro de tudo o que diz respeito a sua vida profissional e pessoal, enquanto Laura não deixa que sua pele de mal amada neurótica esconda seu verdadeiro eu, uma mulher segura de si, que não abaixa a cabeça, seja para investidores carniceiros, ou para o próprio marido, que em momentos de desfoque é por ela auxiliado a enxergar com mais clareza, e que é constantemente lembrado que não foi à toa que ergueu sua empresa ao lado dela.

Ambos os astros são o combustível que mantém o instável e ruidoso motor de Ferrari constantemente explodindo em frenéticos conflitos de diferentes escalas. Porém, nem mesmo as melhores máquinas estão livres de falhas. Há uma insistência do filme em reduzir a velocidade em momentos de impacto, reduzindo assim, de forma brusca, o baque do que poderia alcançar o espectador com eficiente choque. Talvez o realizador Michael Mann, junto de sua equipe de edição, tenha decidido que deveríamos ver tudo com o olhar impassível de Enzo, mas a sensação de anticlímax que resulta de tais cenas em câmera lenta é inegável. 

Entretanto, há um momento em que tal proposta é realizada com sucesso. Dando partida para a pico mais alto do clímax de Ferrari, o filme aperta o freio, literal e metaforicamente, no instante perfeito para gerar apreensão, e então o solta e volta a pisar fundo no acelerador, avançando sem dó de quem acompanha tudo atentamente, atropelando a tudo e a todos com o impacto de uma carroceria de perfeito e refinado ápice cinematográfico. É seco e visceral.

O choque atordoa, mas ajuda a pôr para fora toda a tensão carregada ao longo do filme. O resultado final? Estamos extasiados e satisfeitos, exaustos talvez, da experiência de Ferrari. O pé da embreagem treme, e a panturrilha que sustenta o acelerador teima em torcer uma cãibra. Adrenalina, ansiedade e melancolia fazem de Ferrari uma obra marcante, mas é no brilhantismo de Driver e Cruz que reside o catalisador do que mantém o filme alinhado em toda sua instabilidade.


Ferrari
Ferrari

ANO: 2023

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 2h 10min

REALIZAÇÃO: Michael Mann

ELENCO: Adam Driver, Penélope Cruz, Shailene Woodley, Gabriel Leone, Patrick Dempsey

+INFO: IMDb

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