A arte e as peripécias do teatro em Theater Camp!

Eu tenho de ser honesto, estou cansado de Hollywood ultimamente. Estou cansado de ver a mesma história, feita da exata mesma maneira. Quando eu vi o título deste filme, fiquei a pensar que este seria mais um filme no estilo Disney Channel, ou assim, mas, felizmente esse não é o caso. Theater Camp é, sim, um filme com uma história já conhecida, mas este, ao contrário de muitos outros, tem personalidade. Mas bem, o filme é sobre um acampamento de teatro em decadência que quando a amada fundadora entra em coma, a equipa excêntrica deve-se unir com o filho “cripto-bro” da fundadora para manter o acampamento vivo. Com um orçamento de 8M$, o filme rendeu apenas 4,4M$ nas bilheteiras, mas será que tanto investimento perdido valeu a pena?

 

O guião de Noah Galvin, Molly Gordon e Nick Lieberman, na sua premissa, não é o mais original, mas junto à sua técnica e aos seus personagens este torna-se um filme único. Falemos dos personagens. Comecemos por Amos (Ben Platt) e Rebecca-Diane (Molly Gordon), os dois formam a dupla “principal”. O filme não tem em si nenhum personagem principal, mas como parece estar, mais ou menos, ligado a estes dois, comecemos por eles. Estes dois são tutores no acampamento, e já andam lá há mais de uma década. Os personagens têm uma química incrível que combina com o tom do filme. As ações dos personagens afetam diretamente as crianças do acampamento e quando eles estão chateados as crianças sentem isso. Os intérpretes, Ben Platt e Molly Gordon, fizeram um ótimo trabalho como estes dois. O guião mostra as crianças de uma maneira quase que perfeita. Eles são. nos mostradas como pessoas sensíveis, honestas, e inocentes. E essa imagem é bastante bem passada pelos atores, que encaixam na perfeição nos seus papéis. O pior deles todos é  Alan (Alan Park). O ator não é mau, mas o seu personagem tem um Plot estranho, como se ele fosse uma espécie de agente de estrelas, mas ele não deve ter mais do que  10 anos. O ator em si não é mau. A personagem foi criada pelo humor que não funciona, com a exceção de uma cena ou outra. Ainda assim, as personagens mais problemáticas deste filme são Janet Walch (Ayo Edebiri) e Glenn Winthrop (Noah Galvin). Os dois são mal desenvolvidos. Janet é a nova tutora do acampamento, e isso cria um certo conflito com o resto dos tutores. Mas como ela mal aparece no filme, nós esquecemo-nos que ela existe, e não nos é mostradose ela resolveu- ou não –  os problemas com os outros tutores. Já Glenn,  tem uma motivação própria,  para além de ser a pessoa que controla a parte técnica do espetáculo. Mas essa mensagem não nos é passada. Há uma ou outra cena, mas essas não mostram quase nada. Quando o clímax do personagem é alcançado, nós espetadores ficamos confusos com tudo aquilo. 

Para mim, o personagem mais cativante de todos é Troy Rubinsky (Jimmy Tatro). É um personagem tão bom que eu tinha de dedicar um parágrafo só para ele. Troy é o filho influencer de Joan Rubinsky, a fundadora do acampamento, que sofreu um acidente, e mesmo não tendo qualquer experiência no ramo, ele vai ter que ser o novo diretor do acampamento. Um dos fatores que torna Troy um personagem super interessante é que ele é um influencer do mundo do business, que vende cursos. O personagem dele é uma sátira aos youtubers/influencers da internet. Ele e como muitos outros apresenta-se como um businessman , mas, na verdade, ele não percebe e mostra que não percebe nada business. Esta sátira é executada na perfeição,pois  tu não sentes que ele está deslocado do resto. Bem, ele está, mas é apenas na zona objetiva do filme. Na zona subjetiva, ele é colocado na perfeição. No 3º ato do filme somos apresentados a mais alguns influencers, que também são businessmen, e o próprio filme nos diz que eles estão a ser investigados por corrupção. O que torna Troy um personagem tão credível e engraçado é a maneira como ele fala, ele é cringe, ele é o estereótipo de youtuber que grita e que se arma em rapper, ele grita por atenção. Mas Troy carrega também um lado bastante sentimental, relacionado na maioria com a sua mãe. Nos últimos minutos de filme, Troy apercebe-se de que o acampamento representa, seja para os tutores, para as crianças ou até para a sua mãe, um sítio para quem é excluído, uma família. No último espetáculo do filme, vemos Troy mais emocionado que nunca, tu não o vês a agir de maneira constrangedora, tu não o vês a ser demasiado convencido, tu vês as emoções de alguém que está comovido e realmente afetado por tudo o que aconteceu e está a acontecer. E isto tudo é nos entregue com uma atuação excecional de Jimmy Tatro, numa representação genuinamente boa, sendo emocionante quando tem de ser e constrangedora quando preciso. O melhor trabalho do ator, muito melhor do que a sua atuação em Strays.

Como já disse, estou farto dos filmes de hoje em dia, onde tudo é o mesmo. Mas quando vi Theater Camp, fiquei admirado com a técnica deste filme. O filme inteiro é um mockumentary. Num mockumentary, a história é mostrada como um documentário, seja na forma como é gravada ou na forma como nos é contada, este estilo é também  bastante usado para sátiras. Bons exemplos são Modern Family, The Office ou What We Do in the Shadows. Enquanto que nestas séries e filmes nós temos os personagens a dizer-nos informações (como se tivessem a quebrar a quarta parede) em Theater Camp nós temos informações que nos são deixadas em forma de texto. Eu sinto que este estilo combinou na perfeição com o filme, tornado-o muito mais interessante do que outros. Outro aspeto que ajuda a criar uma certa sensação de documentário rasca, são as músicas. Podendo encontradas algumas delas na internet, mesmo as que não encontras, são muitas delas inspiradas em outras músicas conhecidas. 

Mas nem tudo é bom. O filme tem um filtro de filme antigo, o que pode causar confusão, especialmente nas cenas iniciais, pois ficamos a pensar se aquilo se passa no passado. Só a meio do filme é que te apercebes que aquilo foi o estilo escolhido. Também dá a impressão de que o estilo só foi escolhido para combinar com a cena final do filme. Por outro lado é preciso dar valor à edição, que transforma algumas piadas que, de outra forma, não teriam tanto efeito, em piadas realmente hilariantes. Este filme é bastante beneficiado pelo seu timing, o que é bom, mas também mau, pois quando a edição falha na sua missão, podemos ter piadas fracas e algumas constrangedoras.

Theater Camp passa mensagens bastante importantes- como o facto do acampamento ser o sítio para todas as crianças excluídas por serem diferentes e que deves seguir os teus sonhos, estas mensagens são muito bem executadas e atingem-te. No fim de tudo, é um bom filme para quem ama o teatro, com boas atuações e personagens carismáticas. Um estilo diferente, mas que combina na perfeição, servindo como uma ótima homenagem para o teatro e à arte.


Theater Camp
Acampamento de Teatro

ANO: 2023

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 1h 32m

REALIZAÇÃO: Molly Gordon, Nick Lieberman

ELENCO: Ben Platt, Molly Gordon, Noah Galvin

+INFO: IMDb

Theater Camp

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