Revisualizando: O grande trunfo de The Hunger Games

Quando The Hunger Games foi lançado, torci o nariz. Só podia. Havia muitos fãs dos livros por ai. Principalmente, muitos jovens adolescentes. Trouxe-me recordações de outras sagas adolescentes – com vampiros e até lobisomens à mistura – às quais nunca achei grande piada. Pior ainda, todo o conceito parecia-me uma cópia descadara de um filme japonês que absolutamente adoro, o violento e sádico Battle Royale.

Confesso que nem o vi no cinema, tal o preconceito que estava dentro de mim. Mas se eu sou uma pessoa que não consegue, por vezes, evitar pré-juízos de valor – como quase todos os seres humanos -, sou também alguém que possui uma qualidade da qual me orgulho muito: aceito facilmente que estava errado e muito rapidamente mudo de opinião de acordo com o que observo, tendo zero problemas em partilhar a minha nova e mais fundamentada opinião.

Não é que não continue a olhar para Battle Royale como o filme superior. É mais puro. É mais cru. É mais desesperançoso. Menos cheesy. Menos cinema americano, sempre com o sentimento fácil à flor da pele. Tal como Quentin Tarantino, eu continuo a ver as influências da obra japonesa por todo o lado na obra de Suzanne Collins – a autora dos livros The Hunger Games – por muito que a mesma sempre se recuse a admiti-lo e até diga que nunca viu o filme japonês ou leu o livro que inspirou tal filme. Perdão, minha senhora, mas nessa não caio. O homem que tem tara por pés descalçoes tem razão. No entanto, The Hunger Games tem diferentes méritos.

Apesar de não ter lido os livros, o maior mérito da versão cinematográfica de The Hunger Games recai no seu elenco. Que luxo! Não são só grandes atores. São grandes atores que foram escolhidos a dedo e de forma perfeita para viverem personagens tão diferentes, tão originais, tão bem construídas e, em alguns casos, tão excêntricas (aqui mérito para a autora, claro). Alguém consegue imaginar outro alucinado – e bêbado – Haymitch que não seja o colocado no nosso ecrã por Woody Harrelson? Alguém consegue imaginar outro autoritário e arrogante Presidente Snow que não o de Donald Sutherland? 

Se até consigo ver uma forma de Peeta ou Gale serem vividos por outros que não Josh Hutcherson e Liam Hemsworth – ambos fazem um bom papel, mas não há muito que os torne únicos – já se torna impossível ver uma diferente Effie que não aquela que é maravilhosamente interpretada – e com direito a várias nuances comportamentais – por Elizabeth Banks ou um excêntrico Caesar diferente do que nos é dado por Stanley Tucci. Até surpresas no elenco, como Lenny Kravitz, que faz um trabalho de luxo com um Cinna que merecia muito mais dos argumentistas por tudo aquilo que fez neste (e no seguinte) filme. 

Mesmo quando o diretor de cast teve que escolher atores desconhecidos…wow. O momento mais emocionalmente marcante deste filme – e para ser sincero, de todos os quatros filmes da saga de Katniss – é quando a pequena Rue vê o seu destino traçado. É um momento cruel, daqueles que a saga viria muitas vezes a evitar optando por vias mais seguras, mas foi essencial para o crescimento e para o arco da nossa personagem principal. Do ponto de vista narrativo é perfeito – e também a melhor forma da criadora de se ver livre de uma personagem inocente e pura, da qual não havia outra forma de sair se queríamos Katniss como a verdadeira heroína da história – mas nunca teria resultado como resultou se não fosse por Amandla Stenberg. Hoje atriz de créditos firmados, Stenberg tinha na altura 14 anos e colocou de imediato meio mundo a chorar com uma interpretação tão genuína quanto impactante. 

E, agora que aqui chegamos, não há como fugir a Jennifer Lawrence. Foi isto que fez dela a estrela que ela hoje é e não se pode dizer que tal tenha sido injusto. Desde este primeiro filme que foi a cara da saga e carregou aos ombros uma história que nem sempre foi conduzida com o melhor ritmo ou com a maior clareza de direção. Foi ela sempre que nos manteve interessados, que nos manteve a torcer por uim desfecho razoavelmente feliz e a deixar-nos de boca aberta com a força de uma heroína maior do que a presente na maioria das heroínas em filmes de super-heróis. Porquê? Porque é uma das nossas. Verdadeira. Mortal. Com falhas. Mas com um enorme coração e uma ainda maior atitude. 

Por tudo isto, The Hunger Games foi capaz de perfurar em outros territórios que não apenas de “mais um filme para adolescentes”. Embora sempre tenha tido um apreço maior pelo sangrento filme japonês que terá inspirado isto (Collins, não mintas!), a verdade é que The Hunger Games tem muitos méritos e merece ser a referência que é. O seu maior trunfo? Personagens distintas e excêntricas vividas por um dos mais bem escolhidos elencos da história.

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