Revisualizando: Final Fantasy VII: Advent Children é uma decepção surpreendente

Cheguei tarde na festa de Final Fantasy. Em 2020 tive meu primeiro contato com um jogo da franquia. Apesar de falho, Final Fantasy XV é um excelente jogo, que não só me encantou muito com seu universo e personagens, mas me instigou a conhecer mais dessa que é uma das mais importantes séries de videogames de todos os tempos.

Sigo buscando consumir e me inteirar mais dessa saga, e recentemente pude jogar Final Fantasy VII, episódio mais aclamado da franquia, tido por muitos como o melhor já lançado. O sétimo volume foi um salto tecnológico para FF, uma vez que a série de RPG japonês deixou de lado o visual 2D e adotou gráficos em terceira dimensão. Mas, além da inovação tecnológica, FFVII marcou uma geração com seu comovente e mirabolante enredo, repleto de ação, emoção, revelações surpreendentes e um forte tema ecológico.

A jornada de Cloud Strife e seus amigos para salvar o planeta de organizações milionárias e um psicopata de cabelos platinados não marcou minha infância, como fez com grande parte dos fãs de Final Fantasy, mas com certeza me deixou fascinado em minha tardia experiência. FFVII é do tipo de obra que fica contigo para além dos créditos finais, e te instiga a procurar por mais conteúdos relacionados a ela, mesmo que isso se resuma a discussões em fóruns na internet. Felizmente, FFVII é um enorme sucesso até hoje, o que garante aos fãs uma enorme gama de produções, de diversos gêneros, relacionados ao universo do game.

Dentre esses derivados, há um que estava no meu imaginário muito antes de eu sequer entender bem do que se tratava Final Fantasy. Não lembro ao certo como tive contato com o material de promoção do longa animado Final Fantasy VII: Advent Childreen, mas lembro-me do encantamento que os visuais fantásticos me causaram quando mais novo. Porém, por mais intrigado que estivesse com a ideia de assistir ao filme, sentia que não era correto viver essa experiência sem conhecer melhor o universo de FF. Agora, tendo finalmente jogado o adorado clássico de PS1, senti que era hora de conferir o longa.

Antes de Advent Childreen, assisti ao longa Final Fantasy XV: Kingsglaive, que conta uma história que antecede os acontecimentos de FFXV. E ainda bem que fiz isso. Minhas expectativas para Advent Childreen eram muito altas, quase míticas, e Kingsglaive serviu como um balde de água fria. O filme não é péssimo, tem ótimos visuais e cenas de ação excepcionais, mas tudo o que há de bom nele acaba aí. O enredo desinteressante e as personagens esquecíveis fazem de Kingsglaive um filme que nem sequer merece uma resenha crítica. 

Com isso, pus minhas expectativas em outro patamar. “Ok, talvez os filmes de Final Fantasy sejam todos apenas produções genéricas sem graça”, pensei eu. E lá fui, já anestesiado, pular de cabeça nessa obra que me atingiu de uma forma esquisita. Advent Childreen é, afinal, uma decepção surpreendente.

O filme começa bem, respondendo de imediato uma das maiores questões que tinha em relação a ele: como situar o público casual neste tão complexo e singular universo? Acontece que Advent Childreen tem seu enredo situado dois anos após os eventos catastróficos do jogo original, em um momento em que o mundo se recupera lentamente e as personagens já tiveram seus arcos dramáticos bem desenvolvidos. Assim, é dever da produção dar conta de localizar o público no universo da história que deseja contar, afinal, um filme deve valer por si só, independentemente de produções anteriores, além de que, por se tratar de uma mídia diferente, é óbvio o fato de que outros públicos que não fãs da franquia acabam por entrar em contato com a obra. 

E Advent Childreen não só responde bem a essa questão, como responde de forma quase poética, ao invés de utilizar do didatismo que esperava. Com simplicidade e melancolia, uma doce e comovida narração resume o que se é necessário saber sobre o universo do filme para se aproveitar bem a obra. Agora, quanto ao contexto das personagens, é outra história. Mas já voltamos a tocar nesse assunto. Antes, continuemos com os bons aspectos do filme.

Advent Childreen é muito bem realizado, e eu não esperava por isso. Tetsuya Nomura, importante nome da Square Enix, produtora da franquia Final Fantasy, e realizador do filme, cria um tom surpreendentemente paciente para a animação. Sim, o longa tem muita ação que, por sua vez, é muito exagerada. Entretanto, pelo menos nos dois primeiros terços do filme, o que predomina é o silêncio e a melancolia, capturados por um olhar sensível e atento não só às personagens de visual exuberante, mas aos cenários decadentes e depressivos do violentado mundo de Final Fantasy VII.

Nomura brinca com enquadramentos e movimentos de câmera criativos, além de uma edição ágil, para fazer da experiência de Advent Childreen a mais satisfatória possível. Planos holandeses, que costumam ser mal utilizados no cinema à exaustão, são bem utilizados aqui, reforçando a recorrente sensação de desconfiança e insegurança do filme. O realizador movimenta as cenas com a mesma agilidade inacreditável em que as personagens lutam, desafiando qualquer lógica real de física existente no nosso universo, criando uma sensação alucinante, divertida e surreal. E quanto à edição, nada de cortes naturais e suaves. Nomura prefere que sintamos a montagem, assim como sentimos a ação. É interessante como, mesmo recortando em excesso alguns dos momentos mais agitados, o filme consegue te manter no centro de tudo sem te perder. Só para, em seguida, voltar para a calmaria, e te lembrar de que a mesa de edição sabe o que está fazendo, com rimas visuais entre takes e transições de cena de quem entende de fazer cinema. Bom, entende, pelo menos, visualmente.

A decepção chega quando se percebe o argumento de Advent Childreen. Infelizmente, depois de um começo animador, o longa só decai em qualidade. De início, em contraponto ao que é feito com o universo de Final Fantasy VII, pouco é desenvolvido sobre as personagens em relação ao que levou eles até o momento do início do filme. É engraçado como Advent Childreen parece se preocupar com o público casual quando o assunto é apresentar seu universo, mas decide se restringir aos fãs já estabelecidos quando se volta às personagens.

Além disso, apesar de parecer promissor nos instantes iniciais, o enredo do longa se mostra, com o decorrer do tempo, inexpressivo e inútil. Ao final de tudo, Advent Childreen não leva o legado de Final Fantasy VII a lugar nenhum. As personagens não sofrem mudanças significativas em relação ao final do jogo, e o conteúdo novo não agrega em nada à obra original.

Acaba que Advent Childreen se mostra um grande fan service que apenas serve para aquecer o coração dos fãs menos exigentes da franquia. Nem mesmo as personagens secundárias mais interessantes do jogo se sobressaem aqui, aparecendo apenas como participações gratuitas que nada servem à trama, e não devem fazer o menor sentido para quem desconhece o jogo clássico.

E, infelizmente, o filme fecha sua história com um embate final completamente desnecessário, que poderia ter sido resolvido de forma muito mais simples e satisfatória. Pois, novamente, o fan service fala mais alto, e a decepção atinge com força.

Entretanto, por mais que Final Fantasy VII: Advent Childreen sofra com diversas falhas, seus critérios positivos são interessantes o suficiente para fazer de sua experiência algo minimamente agradável. Mas, após a rolagem dos créditos, é inevitável a sensação de que o filme não passa de uma adição desnecessária ao lore de FFXII, que não diz praticamente nada de relevante, e não faz justiça ao legado do grandioso clássico dos JRPGs.

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7 Comments

  1. Em resumo, assim penso, o filme foi feito praticamente e quase que exclusivamente, para o fã mais raiz. E apesar de concordar que a narrativa não agrega muito mais, para mim não diminui em nada a grandiosidade do filme.
    Quem está consumindo tardiamente esse Final Fantasy especificamente, na minha insignificante opinião, nunca terá a mesma sensação que eu tive quando tudo ainda era novidade. Na verdade, o público mais novo ficou “mimado” com as atuais produções.
    De 1997, que foi quando joguei o original e depois em 2007, quando assisti o filme, muita coisa mudou e não dá para comparar o que eu senti
    e vi com o que o público de hoje espera….

    Quem sabe o filme também não ganhe um remake como o jogo!

    1. Valeu pelo comentário. Não existe crítica mimada ou perspectiva de qualidade diante expectativa do público ou relação do mesmo com a série. O filme é o que ele é, independente de qualquer coisa, e deve ser discutido a partir disso.

  2. Acredito que vc desconheça completamente a novel, on the way to a smile – Final Fantasy VII. É uma série de histórias que contam exatamente o que aconteceu com o grupo, depois que ambos derrotaram e destruíram o Sephiroth na Cratera do Norte. O livro explica muita coisa, não apenas do filme em si, mais da própria história do game… Tmbm existe outro livro entitulado de: turks – The kids are Alright. Que tmbm contam os eventos antes e pós advent children. Este livro tmbm desenvolve melhor, a origem de Kadaj, Loz e Yazoo, os agentes de Sephiroth. Este livro, conta até como a Shin-ra encontrou os restos das células de Jenova na Cratera do Norte…

    1. Valeu pelo comentário! Não conheço mesmo. Mas, como disse no texto, o filme deve valer por si só. Se isso tudo é necessário para se aproveitar ao máximo o enredo do filme, devia estar lá.

    1. Oi. Pq acha minha opinião um lixo? Quer compartilhar a tua com a gente? Qualquer crítica construtiva ou discussão bem argumentada é mais relevante e saudável do que demonstrar ódio sem motivo.

  3. Então… talvez decepção foi o que na época o filme te proporcionou… Na minha opinião o filme serve como um possível desfecho para os jogos que estão sendo lançados recentemente, para mostrar que apesar de Sephiroth ter sido “morto” em FFVII clássico, ele ainda retorna e durante o filme mostra um cenário com lacunas para poderem ser trabalhadas no futuro.
    Hoje com os remakes e com o tanto de possibilidades que poderão ocorrer devido a inserção de linhas do tempo, algo irá se encaixar com o advent children, ou realmente como o amigo mencionou, não necessariamente um remake do filme, mas um com uma nova linha do tempo que os próximos jogos remakes irão apresentar.
    Levando em consideração aos que muitos dizem, “Ah, foi assim por que é fan service, por que o Cloud sempre vai vencer o Sephiroth”, nos dias de hoje faz muito sentido o filme ter seguido o rumo que seguiu.
    Enfim, o filme foi bom, o filme é bom e boas chances de ser visto com outros olhos para quem jogou o VII clássico e o remake.

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