Fresh e os condicionalismos da sociedade que o explora

Fresh tem algo para dizer. Isso é notório desde a primeira cena, mas será que o faz de uma forma assertiva e focada?

A cena inicial coloca-nos imediatamente na ação. Noa (Daisy Edgar-Jones) está a ter um daqueles desastrosos primeiros encontros amorosos. Na rifa saiu-lhe um homem com todas as red flags. No final do encontro, ela diz-lhe que as coisas não vão resultar e ele reage como se espera desse estereotipado homem: com agressividade, tentando rebaixar quem lhe rejeita. A partir daí percebemos que a forma como as relações amorosas atuais se desenvolvem serão fulcrais para a trama. Percebemos também que Noa está cansada deste tipo de homens. Percebemos também que o filme não está muito preocupado em subtilezas e que não devemos esperar grande multidimensionalidade das personagens.

Isso parece mudar quando Noa encontra Steve (Sebastian Stan), no que parece um mero acaso. Steve é encantador, a química está presente, ele não parece um daqueles casos perdidos. No encontro inicial, a química é tanta que até quando ele faz a coisa errada, ele sabe sair por cima da situação assumindo mea culpa – na verdade, é uma técnica de engate bem antiga. Rapidamente tudo evolui para algo mais carnal e Noa cai que nem um patinho nos encantos de um homem que, muito provavelmente, não é aquilo que ela pensa. É difícil falar muito mais do argumento do filme sem estragar o que vão ver e cumpro a minha promessa de só ir até onde o material promocional do filme vai. O trailer e o poster entregam que o tema do canibalismo é abordado, o que é uma clara analogia a relações também elas predatórias. Tudo muito bem, parece o meu tipo de filme, então qual é exatamente o problema?

O problema é que partindo de uma base muito interessante e, desde muito cedo, mostrando-se forte na edição, na música e nos restantes valores de produção em geral – é um filme cheio de estilo -, a verdade é que Fresh fica aquém do que promete. O primeiro ato do filme é interessante ao estabelecer ao que vem. O terceiro ato e sua conclusão entrega precisamente aquilo que todos esperamos. Mas o desenvolvimento, o seu segundo ato, é uma mão cheia de quase nada, com direito a vários clichés de Hollywood. As críticas sociais às relações e aplicações de relacionamento pouco são desenvolvidas – “mulheres como tu são as culpadas” ou “eu não fiz sexo com ele, só tu” são frases que definitivamente querem dizer algo no contexto, mas com pouca relevância para a trama. O canibalismo está lá, mas de forma tão envergonhada que até parece não se querer mostrar: quase nada sabemos de tudo o que está por detrás disso e o gore presente é mínimo, limitando-se a fazer o básico na reta final.

O poster promete que isto não é “para todos”, mas ladra mais do que morde. Consigo imaginar este filme nas mãos de certos realizadores mais amantes do risco e do choque, lembrando-me em concreto de certos franceses ou japoneses. Explorariam o tema sem barreiras, sem os preconceitos próprios de uma sociedade urbana norte-americana que tem sempre algo a dizer, mas que tem usualmente o cuidado de o fazer de uma forma polida o suficiente para não chocar demasiadas mentes. Ou as suas próprias. Este é um filme da classe média urbana norte-americana – de Los Angeles, Nova Iorque ou similares grandes centros urbanos – para a mesma classe. Está a pregar a si próprio, sabendo como o tornar num produto apetecível para quem quer coisas diferentes, mas…não tão diferentes. Afinal, em vários momentos, este filme cheira a uma cópia barata de Promising Young Woman.

Posso dizer que Fresh é uma das minhas primeiras grandes desilusões do ano, depois de o ter visto tão elogiado em Sundance. Tem definitivamente algo a dizer, mas fá-lo de um modo genérico. Nunca pensei que um filme envolvendo relações predatórias e canibalismo pudesse ser chato, mas o segundo ato cheio de nada limita muito o que uma boa premissa inicial prometia.


Fresh
Fresh

ANO: 2022

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 114 minutos

REALIZAÇÃO: Mimi Cave

ELENCO: Daisy Edgar-Jones; Sebastian Stan; Jojo T. Gibbs; Andrea Bang; Dayo Okeniyi

+INFO: IMDb

Fresh

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