Revisualizando: The Kingdom of Dreams and Madness é um olhar reverente àqueles que observam atentamente

The Kingdom of Dreams and Madness (Reino do Sonho e da Fantasia) é muitas coisas. É um filme que retrata os bastidores do renomado Studio Ghibli, gigante da animação japonesa e mundial, explorando da inspiração artística à burocracia financeira da empresa; é um documentário sobre Hayao Miyazaki, principal nome do estúdio, um artista tão excêntrico e complexo quanto seus filmes; é a contemplação da arte do fazer arte por aqueles que são considerados os mestres do ofício; é a melancolia de testemunhar o fardo carregado por quem é atento e sensível o suficiente para enxergar o mundo em toda sua complexidade, e não pode evitar senão transformar tal desagradável experiência sensorial e perceptiva em arte, seja isso o quão doloroso for.

O olhar da realizadora Mami Sunada sobre seu objeto de estudo é reverente. Um observar curioso àqueles que observam atentamente à vida. É melancólico, claro, pois diferente não poderia ser. A aqueles que não se limitam ver e sentir apenas o que é carregado até nós através da inércia, que ousam se aventurar pela natureza das coisas, à procura do real significado das mesmas, ou por algo que seja genuíno e que compense o esforço de tentar enxergar para além do que a zona de conforto nos permite ver, é inevitável a eterna companhia da melancolia. Perceber a vida é perceber o horror. É dolorido o ato de viver, injusto, até. Mas há também beleza nisso, pois é da tristeza que nasce o desejo de felicidade, e é a existência da primeira que justifica e potencializa a segunda. É a partir do choro que o bebê recebe o seio; é da decepção que recebemos a consolação calorosa de quem se importa conosco; é da desilusão que há de surgir a esperança.

A alegria e a beleza são capazes de encher uma obra, assim como a vida em si, de encanto. Entretanto, é o sofrimento que dá sentido a tudo. Por trás dos filmes do Studio Ghibli há cineastas carregados, que viram muito, e muito cedo. Cada obra é um desabafo necessário de suas almas cansadas, cada frame uma janela para o que há de mais íntimo em seu âmago. Mami é uma admiradora, e seu documentário um vislumbre encantado. Um retrato apaixonado e respeitoso daqueles que se esforçam para absorver não o pior ou o melhor, mas o necessário e verdadeiro de tudo e todos para si, e transmitir isso através de sua arte da maneira mais justa e sincera o possível. Do sofrimento nasce a arte; a arte inspira, comove e conecta; das conexões e inspirações nasce arte.

Não quero fazer aqui um discurso anti inteligência artificial, mas o que disse foi o que disse, e o que é, é o que é. Da dor vem a esperança, da esperança vem o amor, do amor vem a dor. A arte de viver é dura, e das experiências de quem se esforça para enxergá-la em toda sua real magnitude e complexidade, é que se origina a verdadeira e significativa arte. The Kingdom of Dreams and Madness pode parecer um filme pessimista e deprimente, mas é, na verdade, um sopro de esperança em um mundo cada vez mais revestido de plástico, ou como o próprio Miyazaki diz, cheio de lixo.

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