The Boy and the Heron é mais uma obra prima de Hayao Miyazaki

Há algo de mágico no cinema de Hayao Miyazaki. E quando digo isso, não me refiro à fantasia presente em boa parte de sua filmografia. Não, me recuso, ao escrever sobre um artista tão sutil, ser tão óbvio. Me refiro a como o realizador emprega sensibilidade em cada aspecto de suas obras, valorizando o sentir, dizendo muito sem muito falar, empregando suavidade à violência, preenchendo o vazio de ruídos, e garantindo simplicidade e harmonia ao caos.

Ah, poucos exploram o vazio e o caos tão bem quanto Miyazaki. É nos momentos de quietude, onde “nada acontece”, que suas obras mais nos intrigam, e é nas sequências caóticas que Miyazaki nos deixa confortáveis, relaxados para absorver tudo o que nos quer fazer sentir. O balanceamento é perfeito, evitando nos desinteressar com as banalidades que insiste em explorar, e nos sobrecarregar com as excentricidades de sua ação.

The Boy and the Heron (O Rapaz e a Garça) é o mais novo filme do cineasta, e é, também, mais uma obra-prima da sua filmografia. Os temas que Miyazaki adora explorar cá estão: o ambientalismo acaba não dando muito as caras, estando presente somente e talvez no contexto dos mais sutis subtextos do enredo, e a aviação por aqui chega apenas para cumprir tabela como um pequeno elemento contextualizador, mas o costumeiro tema central de suas histórias, o amadurecimento, chega para nortear a grande odisséia de confusão sentimental intitulada The Boy and the Heron. Mahito, o rapaz do título, perde sua mãe para a guerra, então muda-se para o campo, onde seu pai encontrou uma nova esposa. As mudanças e perdas são demais para que Mahito suporte de forma saudável, e o resultado disso é sentido no seu comportamento. Não bastando seu caos pessoal, eventos estranhos começam a acontecer com a insistência de uma incomum garça que não mede esforços para se comunicar com o menino. O choque entre os dois é inevitável, o que resulta em uma fantástica jornada que vem a desafiar tudo o que Mahito conhece e sente.

The Boy and the Heron é uma aventura incrível, e muito confusa. E isso é bom. É bom pois nos deixa constantemente intrigados para estar a par do que está acontecendo, mas, ao mesmo tempo, nos fascina de modo a não nos frustrar. A experiência é um vai e vem de conceitos que, de forma perspicaz, trata de nos alienar sempre que pensamos já estar completamente certos do que se passa em tela. O filme se transforma a todo momento, trazendo algo refrescante e provocativo toda vez que pensamos já conhecer tudo o que ele tem a nos proporcionar. Poucas explicações são dadas a nós, pois a obra não trata a si mesma como um filme que se apresenta a uma audiência. Somos jogados em espaços e situações ímpares com seus próprios conceitos únicos, e devemos nos virar, tal qual suas personagens, para compreender tudo o que se passa em cena.

Como já disse, Miyazaki não é óbvio, e valoriza em seus trabalhos, acima de quaisquer “porques” que possam ser ou não respondidos, as sensações que seus filmes podem transmitir. The Boy and the Heron é catártico. Dor, confusão e fascínio nos arrebatam a cada segundo de sua longa duração. Sentimos a dor de Mahito ao vê-lo correr em direção às chamas, desfigurado pelo traço desgrenhado que garante ao rapaz e à cena velocidade, caos e desgraça; somos sufocados pelo silêncio do dia a dia de um menino cuja boca calada enche o vazio com seus pensamentos confusos; somos Invadidos de agitação por um universo colorido e fantasioso, orquestrado por uma banda sonora que dá vida e movimento ao mesmo, onde periquitos famintos nos fazem rir com suas caretas e comentários hilários, e afetos são criados para nos aquecer os corações e fazer nos importarmos com tudo aquilo. Nem tudo o que acontece em The Boy and the Heron pode ser explicado. Certas coisas são como são, só resta a nós aceitá-las, lidando com as consequências de seus impactos em nós, e no impacto que causamos a elas.

Hayao Miyazaki nos presenteia com mais uma pérola cinematográfica, nessa que pode ser a última obra de sua carreira. Um mestre não é reconhecido como tal à toa, e aqui o realizador mostra mais uma vez o porquê de todo seu renome. The Boy and the Heron traz muitos elementos típicos do cinema de Miyazaki, sendo facilmente reconhecido como parte de sua filmografia. Ainda assim, como os demais projetos do cineasta, é uma obra única, de imensurável qualidade, cuja sensibilidade faz do mais banal algo fascinante, e do mais caótico algo confortável.


The Boy and the Heron
O Rapaz e a Garça

ANO: 2023

PAÍS: Japão

DURAÇÃO: 2h 4min

REALIZAÇÃO: Hayao Miyazaki

ELENCO: Soma Santoki, Masaki Suda, Kô Shibasaki, Aimyon, Yoshino Kimura

+INFO: IMDb

The Boy and the Heron

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