Ghostbusters: Afterlife abre portas a um bonito novo começo

Como revitalizar uma saga que teve os seus dois grandes sucessos na década de 80 e que tentou um reboot em 2016 com maus resultados?

Os terrenos onde Ghostbusters pisa não são fáceis. É uma comédia de família, com elementos de ação e terror. Um género onde muita coisa pode correr bem, mas mais ainda pode correr mal. No filme original, de 1984, o elenco principal apresentou um carisma e uma química únicas que apaixonaram todos os fãs de cinema. Recheado de estrelas e acompanhado de uma excelente banda sonora, é um filme que, claramente, faz sentido no contexto dos anos 80 (até porque muitas das suas falas seriam hoje vistas como problemáticas…) e percebe-se o seu enorme sucesso: é do melhor que este complicado género já viu. Cinco anos mais tarde, Ghostbusters II apresentou uma história bastante menos coesa, mas ainda aumentou a escala das maluquices – e dos fantasmas -, voltando a suportar-se no seu elenco para nos dar uma satisfatória e engraçada sequela. Em 2016, chegou o reboot. Com um forte elenco feminino, o filme pretendia criar tudo de raiz e adaptar os famosos caçadores de fantasmas aos tempos modernos. Falhou redondamente. Ainda que a crítica tenha maioritariamente aplaudido o filme, a verdade é que o público não ficou convencido e eu próprio não consegui achar-lhe grande piada: exagera de forma ridícula no humor fora de guião – com piadas fracas a cada 20 segundos -, tem uma fraca história e uma edição profundamente atroz, parecendo martelada à pressa.

Para esta sequela, foi entregue a tarefa a Jason Reitman, filho de Ivan Reitman, o realizador dos dois primeiros filmes, o que demonstra bem o que este filme quer fazer: trazer algo novo, ao mesmo tempo que homenageia e não esquece o seu legado. Os fantasmas saem finalmente de Nova Iorque, vão para o campo, para Summerville, onde temos novas personagens e uma história que, apesar de diferente, está muito ligada à do filme original. Callie (Carrie Coon) é a mãe de dois adolescentes – Trevor (Finn Wolfhard) e Phoebe (McKenna Grace) – e filha de um dos Ghostbusters originais, que abandonou a família há vários anos. Chegando a Summerville, e rapidamente se integrando com os locais, a família rapidamente percebe que o Dr. Engon teve razões para se ter afastado da família e dos amigos, numa trama que até envolve o futuro da humanidade!

Todas as novas personagens funcionam. É raro isto acontecer, mas é verdade. McKenna Grace tem uma interpretação particularmente forte como a menina nerd que, sem o saber, tem bastante em comum com o seu avô e é muito bem coadjuvada pelo seu amigo Podcast – Logan Kim –, o maior alívio cómico do filme. Trevor – conhecido de todos pela série Stranger Things – também tem a ajuda da sua amiga cool, Lucky, e, quem sabe, teremos aqui os nossos futuros Ghostsbusters, embora isso não seja formalmente assumido no filme. Paul Rudd como Grooberson – professor e…com vontade ser algo mais do que apenas amigo de Callie – é outra das boas inclusões, voltando a provar ser ator, depois de tantos papéis onde parecia estar apenas ao serviço da máquina de consumo genérico da Marvel. Claro que um dos pontos fortes é também vermos o elenco original que regressa em pleno para ajudar os mais novos, mostrando-nos que o tempo passou por eles, mas que a magia e o charme por lá continuam.

Afterlife tem duas histórias principais: a história da família que vai viver para o interior e a história dos acontecimentos sobrenaturais, da qual não vou adiantar muito, podendo apenas dizer que tem uma muito próxima relação com a do primeiro filme, faltando até talvez alguma originalidade nesse campo. No entanto, os fantasmas estão melhor do que nunca! Mais assustadores do que alguma vez o foram, este é um filme mais pesado do que qualquer outro da saga, com os excelentes efeitos especiais e o ambiente criado a estarem bem à altura. Também temos direito a fantasmas bons – não vou explicar – e a personagens incrivelmente fofinhas, como os mini marshmallows, que nos dão uma cena inesquecível no shopping. Nem tudo é, ainda assim, um mar de rosas. Senti, por exemplo, falta de termos uma grandiosa cena, como era apanágio da saga, onde todos em casa ou na sala de cinema, poderiam dançar ao som do tema clássico. O tom mais pesado terá pesado nessa decisão, assim como no facto de ser um filme com menos momentos cómicos do que entradas anteriores (embora com menos, consiga ser bem mais eficaz no humor do que o filme de 2016). Também a banda-sonora não esteve à altura do que vimos anteriormente na saga, com poucos momentos que me façam recordar da mesma.

De qualquer forma, Ghostbusters: Afterlife é um filme bem-sucedido. Tem um tom mais pesado do que os outros filmes da saga e isso traz coisas boas e coisas más. Senti falta de um momento mais apoteótico e feel-good nas ruas. Adorei o seu charme e a introdução de excelentes novas personagens. É o melhor filme a seguir ao original e é um bom ponto de partida para uma saga que esteve quase a ser morta há bem pouco tempo e que deve aqui ganhar uma vida nova.


Ghostbusters: Afterlife
Caça-Fantasmas: O Legado

ANO: 2021

PAÍS: Canadá; EUA

DURAÇÃO: 124 minutos

REALIZAÇÃO: Jason Reitman

ELENCO: Carrie Coon; Rudd Paul Rudd; Finn Wolfhard; Mckenna Grace; Logan Kim; Celeste O'Connor; Bill Murray; Dan Aykroyd; Ernie Hudson

+INFO: IMDb

Ghostbusters: Afterlife

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