Godzilla Minus One é muito mais do que um blockbuster normal

Para quem apenas consome cinema norte-americano, será uma surpresa saber que este é o 37º filme relacionado com a saga Godzilla. É uma marca e produto inegável do país, mas mesmo com tanto material já produzido, desde cedo ficou claro que Este Minus One tinha qualquer coisa de diferente. 

Ambientado no final da 2ª Guerra Mundial e pegando em temas que vão do trauma ao legado, passando pelo nacionalismo e honra, Godzilla: Minus One é um daqueles blockbusters que seria um excelente filme mesmo que dele retirássemos o monstro principal e o substituíssemos por outra coisa qualquer. Kōichi Shikishima (Ryunosuke Kamiki) é um herói diferente do que nos habituamos a ver em filmes do género. Ele “congelou” no momento que mais dele era necessário; inventou problemas que não existiam para se safar da sua missão kamikaze; e até deixa palavras por dizer que acabam por magoar todos à sua volta. Mas ele sabe também que a sua missão ainda não acabou e só depois de a ter completado, é que se poderá dar ao luxo de viver o que ainda tem para viver. 

O que mais surpreende nesta obra é que, por vezes, parece estarmos a assistir a uma mistura entre uma obra da Ghibli e um filme do mestre Ozu e isso é tudo o que eu não esperava num filme de um monstro gigante. O drama toma conta do ecrã, o realismo familiar invade-nos a alma e há uma certa magia no ar que quase dispensa a personagem que dá nome ao filme. E com isso não quero dizer que não é feito um trabalho magnífico com a personagem principal. É. É o melhor Godzilla que alguma vez esteve num ecrã – impressionante se compararmos o seu orçamento de $15M com os quase $200M de Godzilla vs Kong – com uma imponência e fisicalidade que Hollywood tainda não conseguiu replicar. Não é patético, não é vulgar. É, sim, assustador. Há um momento de inflexão na história que a todos surpreende quando o monstro gigante ataca em plena cidade. É uma cena arrepiante. Esmagadora na sua escala, chocante no seu realismo e tocante na emocionalidade que é colocada na mesma, passando de uma ataque frio e cruel para o momento mais tocante de todo o filme. E é entre esses dois mundos, um frio e violento e outro quente e familiar que esta obra brilha. Se Kamiki é excelente no papel, menos não se pode dizer do luxuoso leque de atores secundários com Minami Hamabe à cabeça no papel de Noriko, fazendo-nos chorar e sentir ternura – num filme de monstros! – quase sempre que aparece em cena. O guião trabalha estas personagens de tal forma que no final nós queremos mesmo saber delas. Cinema, senhores!

Do ponto de vista técnico, embora já tenhamos elogiado a fisionomia e movimento da criatura, há muitos outros aspetos a realçar. Visualmente, há uma incrível representação do Japão da época retratada, parecendo que estamos mesmo a ver uma obra dos anos 40-50. A ação é toda ela incrível, com clareza de movimentos e ações, nunca caindo na tentação de parecer um videojogo como muito vemos na atualidade. E ainda não toquei naquele som. Aquela banda-sonora. Sempre presente. Sempre a antecipar algo negro, algo pesado. A deixar claro que isto poderá ter um final ainda mais duro do que aquilo que já vimos. Nunca temos uma sensação de estarmos em paz, em segurança, pois sabemos que tudo pode acontecer a qualquer uma das personagens e isso muito se deve ao argumento, sim, mas também a esta poderosa composição sonora.

Godzilla Minus One é um absoluto triunfo. Está para os blockbusters de 2023 como Top Gun: Maverick esteve para os blockbusters de 2022, sendo uma obra muito acima do que a maioria dos filmes do género aspiram a ser. Com um forte argumento, uma inquietante banda-sonora, incríveis visuais e excelentes interpretações que elevam a carga emocional do filme, isto é obrigatório até para quem nada quer saber do monstro principal.


Gojira -1.0
Godzilla Minus One

ANO: 2023

PAÍS: Japão

DURAÇÃO: 124 minutos

REALIZAÇÃO: Takashi Yamazaki

ELENCO: Ryunosuke Kamiki; Minami Hamabe; Yuki Yamada; Munetaka Aoki; Hidetaka Yoshioka

+INFO: IMDb

Gojira -1.0

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