Here Before (ou a sensação de assistir a algo fenomenal que sei que já tive e não esperava ter)

Fantástico. Directo. Profundo. Comedido. Petulante.

Iniciei o filme… Pouco depois de ter aparecido o crédito inicial de “BBC Films”, fui conferir o tempo de rodagem. 1 hora e 23 minutos. “Ui, que isto é telefilme…” – indaguei. “Ao menos encaixo a tempo de cumprir com a tarefa da crítica.” – aliviei.

E assim parti para esta autêntica obra de arte. Com ainda menos expectativas por ser um dos meus mais aguardados do ano, por já me ter corrido mal. Com sentido de missão por ter de ver para ter de escrever. Com cansaço acumulado de toda uma sexta-feira, de toda uma semana, de toda uma nova fase da minha vida após um longo período de incerteza estagnada com paz forçada de despojo de arrelias perante variáveis que não controlo.

A premissa é simples: uma senhora revê numa menina que se muda com a sua família para a casa ao lado, a filha falecida num acidente. A senhora ficou mal resolvida da sua perda. Siga enredo.

Stacey Gregg escreve e estreia-se a realizar este thriller dramático. A única melhor estreia que me lembro a par deste filme foi a primeira época do Cristiano Ronaldo em Espanha onde, recorde-se: sai do último ano de Manchester com 33 jogos e 18 golos no campeonato para La Liga onde factura 26 golos em 29 jogos.

Tal como mencionei a minha potencialmente diagnosticável disfunção psicológica e a memória vívida de tempos idos com o CR7, também Here Before remete a esses temas em particular para carregar o lindo piano de cauda Bechstein onde a prestação fortíssima da protagonista Andrea Riseborough só encontra paralelo noutros três aspectos do filme que compõem o ramalhete para depositar numa campa de uma qualquer filha falecida prematuramente: o enredo, a cinematografia e a sonoplastia.

A história de premissa simples tem a vantagem de ir para onde quiser, como quiser e com quem quiser desde que respeite a ampla esfera que tal simplicidade lhe confere. Stacey Gregg soube-o melhor do que jamais eu poderei saber e cumpriu excelsamente esse objectivo.

Quem diria que a Irlanda do Norte capturada em tempos outonais/invernais/perpetuamente britânicos de clima teria tanta beleza natural que se enquadrasse num tom de tensão e fluidez de psicose? Ainda assim, a cinematografia brilha mesmo em dois pontos em particular acima do anterior: as sequências lentas e os planos fixos. Há planos tão mas tão atrevidos de simbolismo que fariam um Kogonada chorar abraçado a um Wes Anderson. A tez empalidecida de todo o filme é bem-vinda. Todos os outros movimentos de câmara e edição que mantém o plano mas muda a hora do dia são bem executados mas num nível profissional satisfatório de tal. Nada de amplo destaque. Congratulo o editor por não ter feito borrada. Estendo tal congratulação ao uso altamente sóbrio dos efeitos especiais. Foi balsâmico ver CGI usado propositalmente.

O som: a música, o silêncio, os graves, os baixos e os agudos a serviço de criação de ambiente e sem medo de fazer barulho, foram outra partícula de petulância a destacar.

Here Before acertou absolutamente no que quis fazer bem, tendo sido porventura, a espaços, ruminante na ideia de mistério, o que fere o ritmo global do filme quando o terceiro acto poderia ter sido desenvolvido com um pouco mais de espaço, mesmo dentro da excelente duração de 83 minutos face à história.

Já tive esta sensação de ver algo muito bom e mais do que isso, surpreendente, que me ficou na mente. Mas não me lembro. Assim fica Here Before a ocupar esse banco de memória.


Here Before
Here Before

ANO: 2021

PAÍS: Reino

DURAÇÃO: 83 min.

REALIZAÇÃO: Stacey Gregg

ELENCO: Andrea Riseborough, Jonjo O'Neill, Eileen O'Higgins

+INFO: IMDb

Here Before

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