Honk for Jesus (ou um buzinão de protesto perante esta proposta de comédia)

Honk for Jesus é incrível. Mas não é uma comédia. Se assim me continuar a ser vendido, é um péssimo produto. Se estiver a avaliar o que vi pelo que vi e interpretei e me fez sentir, é um dos filmes mais arriscados que já vi no clima social de 2022. Risco é bom, e isto… Isto é incrível.

Ainda segurando o queixo com estupefacção e apreciando a coragem da crítica a um dos sectos mais fechados e nucleares da cultura negra americana, começarei a depositar alguns pensamentos mais imediatos e leves antes de remexer neste lamaçal.

O orgulho que sinto na muito bem-sucedida demarcação de Regina Hall como pessoa singular de “aquela negra dos filmes Scary Movie” é imenso e o meu coração rejubila de regozijo perante o seu crescimento artístico. Já foi consumada com outros títulos, agora vive em estado de graça com uma clínica de representação nesta comédia “dry” e “dark” filmada e formatada em parte, ao estilo “mockumentary”.

Sterling K. Brown é o co-protagonista perfeito para o enredo, para a sua personagem de pastor Lee-Curtis Childs e esposo de Trinitie Childs (Regina Hall). Mas que representação. A nuance necessária para emular um narcisista absorto de tacto sobre o mundo real à sua volta, acções e palavras e depois invocar um ser em profundo conflito com o que é, quem é e quem se faz ser, está arrebatadora e muito bem arrancada e captada por parte do realizador e escritor Adamma Ebo.

Regina é o compasso de realidade, é o olho do furacão de pretensiosismo e hipocrisia de que é envolvida a temática geral de quem faz parte, é dono e é seguidor de mega-igrejas, de igrejas evangélicas e dos bastidores sórdidos que vêm ao de cima sob a forma de um escândalo sexual, neste filme. Ela carrega o filme de forma excelsa, porque recai nela o peso da sua personagem. Ela mostrou tanto em apenas 1h42 de filme. Ela deu-me a prestação que nunca pensei ter dela. Ela… Uau.

Nenhum destes dois presta, e nenhum deles tem culpa disso. Ambos estão num mundo que os recebeu tal como é mas moldou-os para passarem a ser quem são. Quando deveriam questionar-se disso, foi tarde demais. O sucesso na farsa foi desmedido tal que assim que passaram o estado de graça e Lee-Curtis se achava intocável, vacilou sendo quem é numa carcaça que criou e não é e eis o declínio. Este filme explora as retumbas desse declínio e a luta desesperada em voltar ao apogeu, tentando enterrar a realidade que os afastou da ribalta da farsa, com a exponenciação da farsa. Uma “sobre-farsização”. Uma subversão aceite, concebida e tentada da já podre e áspera realidade.

Criado num seio conservador religioso, revi-me imenso nos ramos que este enredo levantou: o fundamentalismo, o facciosismo mesmo dentro de quem defende e apregoa a mesma mensagem de união, aproximação e harmonização pacíficas, a sujidade inerente dos instintos humanos, da carne e dos impulsos e o que acontece a quem exerce sobre esses interesses e a quem esses interesses são exercidos.

A coragem de Adamma em ter escrito e realizado isto tem de ser sublinhada tantas vezes quantas possíveis nesta uma só crónica. Elenco negro. Temática religiosa de negros. Sexualidade e dogmas carnais no seio da comunidade negra. Fundamentalismos e âncoras-placebo de força e sustentação da vida, negros. A delicadeza de mamutes em debandada num chão de porcelana da Vista Alegre que foi a abordagem mordaz, humorada a espaços parcos e, mas, acima de tudo crua até mais não, têm de ser sublinhados tantas vezes quantas possíveis.

Estava a odiar esta comédia por não me ter rido tanto quanto um filme já da era moderna de Regina Hall me proporia a rir, mas ainda bem que fiquei até ao fim desta viagem. Jesus, Nosso Senhor!


Honk for Jesus. Save Your Soul.
Honk for Jesus. Save Your Soul.

ANO: 2022

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 102 min.

REALIZAÇÃO: Adamma Ebo

ELENCO: Regina Hall, Sterling K. Brown

+INFO: IMDb

Honk for Jesus. Save Your Soul.

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *