O que une In the Earth e fruta de supermercado?

Sabem aquela fruta de supermercado? Bonita por fora, que de tanto brilhar até nos entra pelos olhos a dentro? E aquela desilusão de provar essa mesma fruta e perceber que tudo não passava de um truque? É isso que eu senti ao ver este In the Earth, que consegue ser mais insípido que o prato de grelos e brócolos que me tentavam obrigar a comer quando eu tinha 7 anos.

O novo filme de Ben Wheatley tem uma premissa interessante e bem atual: um virus mudou toda a vida da humanidade, vivemos em reclusão, não podemos andar à vontade, não podemos nos encontrar com desconhecidos sem fazer uma série de testes, não devemos sair da nossa bolha. No meio desse todo turbilhão, que é uma versão bem expandida (pelo menos, por agora) das circunstâncias que vivemos hoje em dia, uma dupla composta por um cientista e uma guia local têm que deixar o lugar para ir visitar uma estação remota à procura de algumas respostas.

Na verdade, isto começa bem interessante e os primeiros 15/20 minutos têm a sua qualidade, quer nos aspetos técnicos, quer na criação de uma atmosfera tensa, que parece ser o build-up para algo grandioso. O primeiro incidente acontece e ficamos intrigados. “Mas o que é que se passa aqui?”. O problema é que, quase de imediato, o filme viaja não se percebe bem para onde, com intrigas semelhantes às de uma telenovela mexicana (e isto deve ser uma das maiores ofensas que Wheatley pode receber, tal o pretensiosimo que é notório nas suas obras) e com muito pouco a prender-nos à ação, deixando até de querer mais saber se o mundo vai acabar ou se isto é uma conspiração maior. Eu queria era que acabassem com o meu sofrimento de imediato! Aliás, talvez esse seja o objetivo do realizador para que, assim, possa evitar que muita gente veja o fraco final que tem preparado para nós.

O problema é meu? Ben Wheatley é um realizador bastante elogiado em círculos independentes alternativos e, ainda que as suas obras, em geral, não conectem com a maioria do público, tem a sua legião de fiés seguidores. Será que sou eu – que estou numa maratona de The Fast & The Furious para tentar colocar-me a par com a saga que deixei de acompanhar há anos – que ando a ver demasiados tiros e explosões para não conseguir apreciar a subtileza e profundos duplos sentidos desta obra? Será? Mas…não é exatamente a primeira vez que tal me acontece com as viagens artísticas deste autor, portanto não me apetece assumir essa responsabilidade. A verdade é que In the Earth é uma verdadeira maratona de previsibilidade, de bocejos e mãos na cabeça, em desespero, perguntando-me “porque é que eu me meti a ver isto?”. E quando, finalmente, surpreende um pouco, adivinhem? Já ninguém quer saber!

Fiquei com pena. Pena de ter perdido o meu tempo, mas também com pena de algumas das pessoas envolvidas. Até porque, no meio de toda a confusão e irracionalidade que se passava em cena, a verdade é que Joel Fry e Ellora Torchia tinham-me despertado o interesse e deram tudo o que tinham para tentar tirar algo desta pouco inspirada peça de “arte”. Mas tudo o resto reflete um filme banal que se acha uma obra-prima. E eu suporto filmes banais, o que não suporto é a arrogância da banalidade.


In the Earth
In the Earth

ANO: 2021

PAÍS: Reino Unido

DURAÇÃO: 107 minutos

REALIZAÇÃO: Ben Wheatley

ELENCO: Joel Fry, Ellora Torchia, Reece Shearsmith, Hayley Squires

+INFO: IMDb

In the Earth

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